sexta-feira, 20 de abril de 2012

Entre o real e a ficção


                       

O senhor Juca é um viúvo que saiu do nordeste de Pernambuco para ganhar a vida aqui em São Paulo. Hoje, aposentado passa seu tempo assistindo televisão, gosta de quase todos os tipos de filmes, principalmente os de ação, os de karatê e de  Kung Fu, deixa-o todo animado. Ele é daqueles que ainda se impressiona com os que têm efeitos especiais, apesar de dizer sorrindo olhando com atenção para a telinha.
__ Que mentira da gota serena! Como esse carro foi parar em cima desse prédio? Esse povo inventa cada uma, qual o besta que vai acreditar nisso? KKKKKKK. Diverte-se o senhor Juca, com os exageros das cenas.
No entanto, o mais engraçado é quando o filme é de suspense, que o senhor Juca fica o tempo todo alertando o mocinho, para o perigo que esse está correndo.
__ Cuidado com esse cabra aí, seu trouxa! Não está vendo que ele não é teu amigo? Olha pra trás, o camarada aí tem uma faca escondida no bolso, se você não ficar esperto ele vai te matar! Grita o senhor Juca, de pé diante da televisão contracenando com os artistas principais do filme.
Senhor Juca vibrava, vivia a cena como se fizesse parte dela e quando não concordava com o final da história, ficava nervoso, bravo com os artistas, terminava xingando o autor, dizendo que era ele que não prestava, que colocava maldade nos personagens.
Aí pronto, abria a boca fazendo o seu protesto.
__ Esse autor é um miserável, matou quase todo mundo do filme e no final o bandido ainda terminou livre, rindo das caras dos idiotas que estão assistindo, que somos nós mesmos KKKKKKKKKKK.
  Acaba que ele ri dele mesmo, mas em geral o que deixa o senhor Juca furioso até mesmo incrédulo é as crueldades dos personagens. Ele não entende onde o autor vai buscar tanta maldade com requintes de violências envolvendo a protagonista, mas mesmo assim não arreda o pé diante da televisão, indignado, ora fala mal dos artistas, ora se emocionava penalizado com o destino da personagem, porém só tem um tipo de filme que o senhor Juca não gosta, ele se recusa vilmente a assistir esse gênero de filmes, é os de vampiros, esse tipo de filme o impressiona tanto, a ponto de tirar-lhe o sono. Não gostava de ver nem as chamadas desse filme em comerciais, só em ver os vampiros na telinha ia pra cama assustado com medo que os vampiros viessem chupar seu sangue, enquanto dormia.
No entanto, não era segredo pra ninguém que senhor Juca era mesmo um noveleiro de mão cheia, não perdia uma só novela, discutia com os artistas, travando longas conversações. Gritava, ficava nervoso, injuriado dizia que não conseguia entender como podia existir gente tão ruim, como na televisão.
Os filhos ficavam preocupados com esse comportamento do seu Juca, ele não era uma pessoa solitária, ao contrário era raro a sua casa estar fazia. O senhor Juca, juntamente com sua saudosa esposa construíram uma família grande, esse tinha sempre filhos e netos e agora bisnetos do seu lado pra conversar, mas quando chegava à hora das novelas lá corria o senhor Juca para frente da televisão, para contracenar com os artistas da novela.
 __ Cabra safado, porque faz isso com a outra, desde o começo que eu sabia que esse sujeito era falso!
Se a cena era de romance ele ficava olhando o casal contracenando, de canto de olhos fingindo que não estava prestando atenção, mas quando a cena era de intrigas ele ficava irritado, só faltava mergulhar dentro da TV para se atracar com os artistas. Os filhos, muitas vezes assustados com a atitude do pai, entrevia:
__ Calma pai, isso é apenas uma novela!
Senhor Juca ainda no calor da cena, respondia:
__ Eu sei que é novela, mas assim como acontece na televisão, acontece também na vida real! Vai me dizer que não existe gente safada como esse aí? Esse infeliz está maltratando a menina, a pobrezinha está sofrendo e ninguém consegue prender esse condenado, mas também olha a cara dele? Só não vê quem não quer, está estampado na cara de fuinha desse sujeito, que ele não presta, mas também essas moças de hoje confia em todo mundo, termina que acaba morrendo assassinadas nas mãos desses cabras da peste! Resmungava o senhor Juca, inconformado com o destino da protagonista da novela.
E era assim o episódio inteiro, o senhor Juca não parava de falar, com os olhos vidrado na televisão, se assustava quando o assassino se aproximava da mocinha, sentado na ponta do sofá dá um pulo, chegando mais próximo da televisão, nervoso grita:
__ Hei moça, cuidado! Não confia nesse rapaz, ele tem um mal para te fazer!
Porém, a cena transcorre indiferente a vontade do senhor Juca, esse, desesperado com a aproximação do assassino, seca o suor frio que teima em escorrer lhe pela testa.
__ Não adianta, esse bexiga vai matar a moça, eu não quero nem ver!
Fazendo de suas palavras ação, o senhor Juca torna a sentar na ponta do sofá, de cabeça baixa sem olhar pra tevê prevendo o desfeche da cena, inconformado balança a cabeça, resmungando:
__ Eu não sei como esse povo ainda cai nessa, não sabe nem de onde veio esse homem e já põe pra dentro de casa e termina nisso, morrendo nas mãos de um sujeito que não vale nada!
Os filhos, apreensivos diante da irritação do pai, vem em seu socorro.
__ Pai, o senhor precisa se controlar! Vai terminar tendo um ataque cardíaco por causa de novela!
O senhor Juca, de olhar atravessado, na lata torna a responder. 
__ E vocês acham que eu não sei que isso é novela! Mas existe gente também muito ruim na vida real, a novela imita a vida! Ou vocês acham que isso não pode acontecer no nosso dia a dia. E então eu acabo de conhecer uma mulher, não sei de onde ela veio e levo pra dentro da minha casa! Só se eu fosse muito burro! Sabe-se lá o que se passa no coração dessa mulher! Tem gente que eu vou te contar, procura a desgraça. Hoje em dia não se pode confiar em ninguém!
Preocupados com o jeito desarvorado do pai, os filhos aconselham:
__ Menos pai, cuidado com o coração! Recomendava os filhos, preocupados com a saúde do velho pai.
E assim ia vivendo o senhor Juca, brigando e se emocionando com os personagens da tevê. Chegava a ser cômico, o homem de pé em frente da televisão gritava contracenando com os artistas, como se ele também fizesse parte da cena.
__ Cuidado com esse homem de chapéu preto, é ele o assassino! Olha ele aí, está bem atrás de você! Alertava seu Juca, bufando de ódio.   
__ Olha pra trás, olha pra trás seu burro! Mas esse cara é um idiota, um bocó mesmo.
 Nisso, só se ouvia o barulho dos tiros ressonando pela sala! Bam, Bam, Bam.
  Por algum momento o silêncio é geral, o senhor Juca abaixa a cabeça lamentando o desfecho da trama, entristecido volta a se sentar no sofá, assim que se recupera da emoção, torna a dizer com voz rouca:
__ Tai, morreu, seu trouxa! Eu não falei pra você que aquele homem de chapéu preto não prestava. Quem manda ser bobo!  Parece cavalo atado na carroça, só olha pra frente! Eu bem que te avisei não me ouviu! Diz o senhor Juca, decepcionado, com as mãos nos cabelos em desalinho.
Mas não era apenas com os artistas das novelas e filmes que o senhor Juca se enfezava. Corintiano roxo xingava até a terceira geração do juiz, comandava a partida de futebol do começo ao fim, aliás, os filhos do senhor Juca cresceram assistindo o pai com um radinho de pilha no ouvido, conferindo os resultados da loteria esportiva, pois todo final de semana estava lá o senhor Juca fazendo sua fezinha e ai daquele que falasse na hora que ele estivesse pegando o resultado do jogo.
__ Cala boca, bexigas! Como se pode conferir o resultado do jogo com essas pestes tagarelando!
De fundo, só se ouvia a zebrinha com a voz da atriz Elke Maravilha, falando:
__ Olha eu aí, deu coluna do meio!!!
O senhor Juca voltava pro jogo, revoltado.
__ Zebra miserável, porque tinha que aparecer, justo agora que eu estava ganhando!
Foi um alívio para os filhos do senhor Juca quando inventaram os fones de ouvido, afinal o senhor Juca podia pegar os resultados da loteria esportiva sem nenhuma interrupção. Depois dos filhos adultos, após anos o senhor Juca apostando na loteria ganhou alguns prêmios, o felicitando com alguns momentos de alegrias.
E assim continua o senhor Juca até hoje, vivendo essa vidinha rotineira mergulhado no mundo da tevê.
O que tranqüiliza os filhos é que em por enquanto senhor Juca parece que sabe que tudo que se passa na televisão é ficção. Os vizinhos e parentes que chegam em visitas ficam impressionados com o jeito do seu Juca, uns dizem que ele estava louco, outros dizem que ele é apenas um homem solitário. O senhor Juca tem a família inteira a sua volta, no entanto sempre fugia para seu canto se embrenhando no mundo da televisão, mas no fundo mesmo eu acho que o senhor Juca é apenas um homem emotivo, que não esconde as suas emoções, é uma maneira de mostrar ao mundo, que ele ainda esta vivo.

                                
Dilma Lourenço Moreira
























             

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