sábado, 3 de setembro de 2011

O Ranzinza





O senhor Gerando é um homem muito insatisfeito. Está sempre infeliz pelos cantos reclamando da vida. Nada pra ele está bom, mas também não faz nada para que a sua vida melhore. Ele é casado, tem dois filhos, não que ele quisesse formar família, nunca escondeu isso de ninguém que só se casou por pressão da esposa dona Lucinda, uma santa mulher que agüenta esse homem reclamando dia e noite. Filhos, ele diz que também nunca quis ter, mas a dona encrenca insistiu em engravidar, agora tinha mais estas responsabilidades em suas costas.
 
Entre o namoro e o noivado passaram-se 15 anos e se dona Lucinda não desse um cheque-mate estavam ainda noivando até a data de hoje. O senhor Geraldo não tem pressa pra nada, na firma está ocupando o mesmo cargo há anos e volte e meia entra em crise com medo de perder o emprego. Só em ouvir o boato nos corredores da empresa que vai haver corte de funcionários, ele sempre acha que vai nessa leva e aí ninguém agüenta o humor desse homem. Sorte de dona Lucinda e das crianças que ele não é do tipo violento, se põe em seu canto ficando amuado por dias. Com o tempo, esse temor de perder o emprego só piorava, deixando o senhor Geraldo cada vez mais arredio e distante da família. O cargo que ele ocupa na empresa é sedentário, fica sentado todo o tempo de frente de um painel de controle e mesmo assim qualquer acontecimento fora desta rotina o deixa estressado. Dona Lucinda tem muita paciência com ele e não liga muito para as suas rabugices, eles ficam semanas sem trocar uma só palavra, entra e sai de casa, volta para o trabalho mudo, não dirige uma palavra com ninguém, nem com a família, nem com os companheiros de trabalho. Também, se abrir a boca é para reclamar e nem todo mundo tem paciência para tolerar gente de baixo astral, depressiva. Termina que o senhor Geraldo fica isolado em seu mundo triste e sombrio, sem ter com quem falar.

Os amigos já cansaram de lhe aconselharem:

__ Geraldo! Por que você não vai fazer terapia? Está sempre depressivo, isso não é bom pra saúde.

Geraldo responde atravessado:

__ Eu não preciso de terapia, apenas não tenho motivos para sorrir.

__ O que é isso cara, você tem saúde, dois braços, duas pernas, ouve bem e enxerga perfeitamente e diz não ter motivos para sorrir, que dirá se tivesse em cima de uma cama de hospital, dependendo da bondade humana.

__ Pra viver assim, é melhor se matar de uma vez!

__ Puxa cara, você é muito baixo astral mesmo! Está precisando de ajuda! Vá ao médico ou procura uma religião que te dê alento pro teu coração, senão esta tristeza vai terminar te matando. O amigo sai dando um tapinha nas costas de Geraldo, penalizado com o estado mental do companheiro de trabalho.

Mas também Geraldo era motivo de piadas, alguns companheiros riam em suas costas.

__ Olha lá o Geraldo vindo acompanhado de sua nuvenzinha negra de sempre.

__ Ká, ká, ká, ká, ká!  É mesmo cara, tem gente que não consegue relaxar! Ele parece uma ave mal agourenta, só vê o lado ruim das coisas. A esposa dele diz que em casa ele é do mesmo jeito, sempre estressado, mal humorado, coitado, só ele que está perdendo com isso, tem uma família bonita, todos saudáveis e o homem vive nessa tristeza. Só olha pro próprio umbigo, problemas financeiros qual o assalariado que não tem?

__ O pior cara, que o problema do Geraldo nem é financeiro, nem ele sabe explicar, está sempre desanimado sem motivação nenhuma para viver. Ouvi dizer que um dia desses ele foi parar no pronto socorro, com problemas renais. Sabe como é, o estado mental termina passando pro físico prejudicando a saúde, ele precisa cuidar dessa depressão, se não quiser ir  mais cedo pro buraco.

__ Olha cara! Nem fala em morte com o Geraldo! Do jeito que ele, é uma dorzinha no canto da unha é sintoma de doença grave, ele precisa cuidar do psicológico, pessoas que se isolam, uma hora ou outra terminam surtando, é aí que acontecem essas tragédias de assassinatos, acompanhados de suicídio.

__ Nem me fala isso cara! Uma pessoa assim deve ser tratado como doente. Me admiro muito que nos exames periódicos obrigatórios que fazemos aqui na firma, ainda não tenham descoberto essa depressão. Um homem que está sempre em volta das sombras não mostra o real que se esconde na alma, se tornando um perigo ambulante, pronto a surtar a qualquer momento, muitas vezes trazendo perigos para a sociedade.

Os dois amigos se calam. Geraldo se aproxima juntando-se aos companheiros, entra no transporte em retorno ao lar, esse se acomoda longe dos demais. Chegando em casa encontra a esposa na cozinha preparando o jantar, as crianças brincam na sala, o caçula  faz um barulho ensurdecedor com um carrinho de pilha, quando Geraldo chega todos ficam em silencio até o pai entrar no quarto e fechar a porta atrás de si. Era sempre assim, esta era a sua rotina, o filho mais novo pergunta:

__ Mamãe! Por que o papai não gosta da gente?

Dona Lucinda para o que está fazendo, entra na sala secando as mãos no avental.

__ Que pergunta é esta, filho? Claro que o papai nos ama!

__ Então, por que ele não fica junto de nós? Está sempre trancado no quarto, mesmo quando está de folga, nem olha pra nossa cara quando chega do trabalho.

Ricardo, o filho mais velho do casal também entra na conversa.

__ É isso mesmo, mamãe! O papai age como se a gente não existisse. Ele está doente ou vocês vão se separar, como os pais do Zezinho.

__Claro que não, filhos!  O papai só está um pouco chateado, mas não é nada com a mamãe, nem com vocês, está triste com ele mesmo, mas isso um dia vai passar.

Ricardo, com olhinhos tristes pergunta:

__ Vai passar quando? Tenho oito anos e o papai está sempre assim, é como se ele nem morasse aqui com a gente. Os pais do meu amigo brincam de bola com eles, vão à praia, são até amigos, quanto a mim, nem parece que tenho pai. Quando perguntam por ele, falo que está viajando, é um homem muito ocupado, mas a verdade é que ele nunca ligou pra gente.

Dona Lucinda abaixa a cabeça sem graça. Não sabia que as crianças estavam sofrendo com a indiferença do pai sempre desatento com as crianças, chegando até a ser omisso na educação dos filhos. Quando ela reclamava, ele dizia que aquela era a sua obrigação, a dele era a de trazer o sustento para casa e dizia mais, que foi ela quem quis ter filhos, agora que agüentasse.

Dona Lucinda tem os dois filhos sentados em seu colo, olhando carinhosamente nos rostinhos deles, diz:

__ Filhos! Quero que vocês tenham paciência com o pai de vocês. Como eu já disse, não é que ele não goste da gente, na verdade ele não se gosta, não tem motivação pra viver. Já há algum tempo que tento convencê-lo a procurar um médico, ele está desperdiçando a coisa mais importante para uma pessoa, que é compartilhar o dia a dia com a família. Logo, o papai vai ficar bom, curado desta tristeza e ai sim, seremos uma família feliz.

Na janela, mais alguém está escutando a conversa.

__ Como você se ilude, filha! O Geraldo é um ogro, um homem turrão que jamais vai conseguir fazer alguém feliz. Você escolheu mal o seu marido e o pior, quem sofrem mais são esses coitadinhos aí, que não pedirão pra nascer.

__ Mamãe, já pedi pra senhora não falar assim do Geraldo na frente das crianças. Estava justamente aqui falando com eles sobre o problema do pai.

__ Problema! Desde que vocês se casaram esse homem é assim, estranho, arredio, parece um bicho do mato, não fala com ninguém. Pra mim ele é louco, você está é perdendo o seu tempo na companhia desse homem. Você é jovem, bonita, ainda tem tempo de refazer sua vida. Sozinha, você e as crianças já está faz tempo, este homem não te acompanha a lugar nenhum, está sempre de tromba pelos cantos. As crianças estão crescendo sem a companhia do pai e isso não é bom para elas.

__ Mamãe! Eu estava pensando! Quem sabe o Geraldo não esteja doente. Quando nos conhecemos ele não era assim, mas depois do casamento ele foi se isolando de tudo e de todos, vive em uma tristeza de dar dó, só sai de casa pra trabalhar. No trabalho fica em uma sala fechada o dia inteiro, praticamente lá também não fala com ninguém. Mamãe me ajude! A senhora conhece algum médico que cure esta tristeza do meu marido?

__ Minha filha, me poupe! Para mim, isso é frescura! Esse homem lá tem motivos pra ter depressão!

__ Mãe! Depressão é uma doença muito grave, se não cuidar, a pessoa pode até morrer.

__ Nossa, que dramática! Ninguém morre por causa de depressão e além do mais, Geraldo não morreu até agora, é sinal que esse traste não vai morrer tão cedo.

__ Morre sim, mãe! A pessoa com depressão começa a se isolar, se afasta do convívio familiar e social, recusa a se alimentar, a saúde fica frágil e se não cuidar termina morrendo. Aconteceu isso com a mãe de uma amiga minha, o filho se envolveu em más companhias, foi preso por assalto seguido de morte. Ela, a mãe, caiu em uma depressão profunda, internaram a mulher pra tomar soro, porque ela se recuava a se alimentar. Não se conformava um filho tão amado, bem criado, praticar tão delito. Ela não suportou tanto desgosto. Lembro-me como se fosse hoje, essa amiga chorando, contando que a mãe estava muito mal, eu ainda adolescente perguntei, e o que a tua mãe tem? Ela está com depressão, desgosto por causa do meu irmão. Eu, inconseqüente, respondi: Fica tranqüila, sua mãe vai ficar boa. Depressão não mata ninguém. Passaram-se alguns dias e tive a notícia de que a mãe dessa minha amiga tinha morrido, me senti muito mal e até mesmo envergonhada, por  ter tratado um caso tão sério, com banalidade.

__ É, mas essa senhora tinha motivos pra ficar deprimida.

__ Aí que a senhora se engana. Não precisa ter motivos pra entrar em depressão, é uma tristeza que sai do íntimo da alma fazendo a pessoa perder o gosto pela vida, com o perigo até dessa vir a praticar o suicídio. Mãe, se o meu marido estiver doente a minha obrigação é de ajudá-lo, o problema é que ele se recusa a procurar um médico, a senhora bem que podia falar com o Geraldo, ele te respeita, te ouve, quem sabe a senhora não consegue convencê-lo a procurar ajuda, faça isso mãe, para felicidade dos seus netos, os bichinhos estão crescendo sem o afeto do pai. Sinto que o meu marido está nos escapando pelos vão dos dedos, está sempre ausente, se sentindo infeliz, se arrastando pela vida.

__ Bem, se é assim vou falar com ele agora mesmo! Olha o marrento aí chegando, ele viu que eu estava aqui e o mal educado nem parou para me cumprimentar.

__ Mamãe! Seja amável com ele, o Geraldo está doente.

__ Bam! Isso é um traste! Ainda acho que você estaria melhor sem ele, mas se é para o bem das crianças, lá vou eu. O que uma mãe não faz por sua família!

Dona Cida entra feito um furacão no quarto pegando Geraldo de surpresa, apontando o dedo em sua cara vai dizendo:

__ Olha aqui Geraldo! Se você não é homem o suficiente pra fazer uma família feliz, você pode sair agora mesmo pela aquela porta e nunca mais voltar. Fica aí dando um de coitadinho pra fugir das responsabilidades, a mim você não engana.

__ Do que a senhora está falando, dona Cida? Pergunta Geraldo, abismado com o jeito tempestuoso da sogra.

__ Não vem dar um de inocente, Geraldo! Pra mim você sempre foi um incapaz, eu não sei o que a minha filha viu em você, mas o que importa é que vocês formaram uma família. Agora você anda por aí pelos cantos com jeito de doido, pra deixar a responsabilidade nas costas da minha filha. Ela não fez essas crianças sozinhas, seus filhos precisam de sua atenção, da sua presença como pai. Eu estou aqui porque a minha filha está preocupada com você, ela quer te levar em um psiquiatra, vou marcar um horário com o especialista e ai de você se recusar, sou capaz de me mudar para cá pra defender a minha família. Então, o que você resolve? Vai ou não vai ao médico?

Geraldo diante das ameaças da sogra não tem como dizer não.

__ Pode marcar o médico, dona Cida, a Lucinda cismou com isso, mas eu não sinto nada, apenas uma tristeza profunda se apoderou do meu ser. Tem dia que tenho vontade de morrer, não vejo mais graça na vida, eu não sei o que estou fazendo nesse mundo.

__ Pois eu te respondo, veio infernizar a vida da minha filha. De doente você não tem nada, está só arranjando uma maneira de se livrar do peso do casamento. Está mais com cara que arranjou uma sirigaita por aí e depois fica fingindo estar com depressão pra enrolar a boba da minha filha, mas, hó! Estou de olho em você e comigo espertalhão não se cria.

__ Dona Cida, tenha piedade! Prometo que vou ao médico! Diz Geraldo, assustado com o jeitão da sogra.

Nisso, Lucinda se aproxima percebendo a carranca que a mãe faz pro Geraldo, pronta pra engrossar.

__ Filha, eu consegui! O teu marido concordou! Amanhã mesmo vou marcar a consulta com o psiquiatra e espero que esse malandrão tenha alguma coisa. Se eu descobrir que esse cínico está fazendo você e as crianças sofrerem de propósito, nós vamos ter outra conversinha e com certeza não vai ser nada amigável.

__ Calma mamãe! Não se trata uma pessoa doente com essa truculência.

Dona Lucinda abraça o marido, com os olhos carregados de esperança.

__ Que bom querido, que aceitou ir ao médico! Logo vai ficar curado dessa depressão e voltar a sorrir outra vez, estou sentindo saudades do Geraldo de antigamente.

No dia da consulta lá foi os três para o consultório. Quando o nome de Geraldo foi chamado, dona Cida se levanta para acompanhar o casal.

__ Não mamãe! Prefiro entrar sozinha com o meu marido.

__ Tudo bem filha! Se precisar estou aqui fora. Disse dona Cida, olhando firme pro genro.

Nesse dia mesmo, o casal saiu do consultório com o ânimo renovado. Depois dessa consulta Geraldo é um novo homem. Está tomando remédios para combater a depressão e ansiedade, está fazendo sessões regularmente com o psiquiatra, que aos poucos vai falando dos seus medos e inseguranças. Segundo o psiquiatra, ele tinha medo de falhar com a família, quando criança Geraldo foi abandonado pelo pai, foi criado pelo padrasto, que era um homem muito rígido e exigia muito de Geraldo quando criança, vindo esse a se tornar um adulto antes do tempo. Pra se livrar da palmatória do padrasto começou a trabalhar ainda muito menino. Quando as crianças nasceram ele se isolou em seu mundo com medo de falhar como pai, apesar do amor que sentia por eles achava que as crianças e a Lucinda viviam melhores sem ele e era isso mesmo que estava por acontecer se a esposa dona Lucinda não insistisse para que ele fosse ao médico se tratar.

Geraldo, hoje está quase curado, está mais sociável com as pessoas e ontem saiu na companhia da mulher e das crianças, em um passeio.

Dona Lucinda está a ponto de estourar de tanta felicidade, enfim a sua família estava completa.



                                       Dilma Lourenço Moreira


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