sábado, 22 de dezembro de 2012

O gato Bolão



                            
Dona Maricota tem um gato que se chama Bolão. Esse felino, além de ser muito preguiçoso é medroso, o menor barulho o assustava fazendo o tremer de pavor, por isso raramente saía pra fora de casa, passava o dia todo no regalo espichado no sofá da família, dali só se levantava para comer ração, tomar leite na tigela ou fazer xixi na caixa de areia, em seguida retornava ao conforto do sofá morrendo de fadiga.
Dona Maricota também tem um cachorro da raça doberman que se chama Janjão, o cão implicava o tempo todo com gato Bolão, chamava-o de inútil, fracote, jogava a toda hora na cara do felino que ele não servia nem pra caçar ratos. O cão Janjão fica do lado de fora da casa e sempre que encontrava Bolão dava umas corridas nele pra que ele ficasse mais esperto, o cachorro doberman ficava revoltado com a lerdeza do gato, se fosse um gato velho ainda vá lá, mas Bolão era novo, quase um filhote, esse não mexia as patas pra nada. Lá fora o sol estava de abrasar, enquanto isso Bolão rolava nas almofadas sobre o frescor do ar condicionado, estava gordo feito uma bola de tanto comer ração de peixe e biscoitos amanteigados, até que um dia entrou um ladrão na casa de dona Maricota, enquanto Janjão passeava com seu dono no parque. Bolão se mijou tanto de medo, mas não saiu do canto que estava, o pior foi aguentar o sarro de Janjão quando viu Bolão encolhido em um canto tremendo de medo, em uma poça de xixi.
__ KKKKKKK! Bolão! Você é mesmo um gato inútil, não vale a comida que come, não tem vergonha em fazer um serviço desses na sala, você tem sorte que a dona Maricota é uma pessoa bondosa, outra no seu lugar te daria um chute que você ia pra na lua.
__ Janjão, eu não sei por que eu sou assim tão medroso, queria ser como você, forte, valente, sorte que você chegou a tempo e pôs os bandidos pra correr, senão a estas horas eu estaria morto, eles podiam me raptar, me sequestrar, sei lá, estou temendo até agora.
O cão rolava no chão de tanto que ria do jeito assustado do gato. KKKKKKKK!
__ Relaxa Bolão, você é um gato que não vale um vintém furado, agora volta lá pras tuas almofadas, deixa que a segurança da casa cuido eu.
__ Janjão, fica sempre por perto, os bandidos podem voltar. Pede o gato ainda tremendo.
Volta Bolão ainda preocupado pro sofá tentando se refazer do susto, estressado olhava assustado a sua volta, a cada barulho que ouvia sentia o coração querer sair pela boca.
Dona Maricota se aproxima morrendo de pena do estado do frágil felino, que ainda não tinha parado de tremer, essa amorosamente anima o animalzinho em seu colo lhe fazendo carinhos, tentando fazer com que o gatinho assustado se acalmasse. O gato Bolão ronronando manhosamente agradece o carinho de sua dona, se aconchega no colo quentinho de dona Maricota, consegue relaxar e até tira uma soneca, pois sabia que no colo da boa senhora ele estaria seguro, então dona Maricota preocupada com o estado emocional do seu bichano decide chamar o veterinário. Esse, depois de examinar Bolão minuciosamente, diz que ele esta bem, o que ele precisa mesmo é fazer um pouco de exercícios, pois ele estava acima de seu peso normal, mal estava conseguindo caminhar, de tão gordo que estava.
Janjão que assistia tudo da janela solta uma gostosa gargalhada, dizendo:
__ Eu sei bem qual é a doença desse gato malandro, é pura preguiça, KKKKKKKK. Não saiu do lugar nem quando viu os ladrões entrando na sala, preferiu fingir de morto pra evitar a fadiga. Gato imprestável, além de preguiçoso é medroso, mas os bandidos tiveram o que mereciam, cheguei bem a tempo de por eles pra correr daqui, cada um com um buraco nos fundilhos da calça. KKKKKKKKKK. Esses não voltam aqui nunca mais KKKKKKK.
Quando o veterinário saiu dona Maricota foi logo pegar os apetrechos para Bolão fazer os exercícios.
Janjão que continuava atento na janela da sala rolava de tanto rir diante da cara de preguiça do gato, dona Maricota jogava a bolinha e pedia pro gato ir pegar.
__ Bolão! Pega a bolinha, vai lá nenê, pega a bolinha pra mamãe!
Mas o gato não saia do lugar, mal se mexia.
__ Vamos lá Bolão, animo, pega a bola! Você precisa de exercícios, levanta daí nenê, vamos brincar de bola? Cadê o bichano lindo da mamãe?
__ KKKKKKKKKK, Rachava o bico, o doberman Janjão.
 A boa senhora fez várias tentativas e o gato nem tchum pra ela, até que essa desiste queixosa:
__ Não é possível, o veterinário deve ter se enganado no diagnóstico do Bolão, ele não me parece doente, mas está tão fraquinho! É melhor dar-lhe algumas vitaminas pra ver se ganha ânimo.
Enquanto isso, Bolão de patas pra cima jogado no sofá roncava sobre os olhares preocupado de dona Maricota, ela comprou até um ratinho de brinquedo pro felino fazer exercícios brincando, mas nem assim Bolão se mexia, só queria dormir, até que alguém na família teve a ideia de trazer uma gatinha pra fazer companhia pro Bolão, pra ver se tirava ele daquele desânimo.
 O gato Bolão odiou a ideia, porque a gatinha logo caiu nas graças de dona Maricota, que não parava de elogiar o jeito delicado da felina, toda mimosa, de laçinho vermelho no pescoço, seu nome era Talita, ao contrário de Bolão, era brincalhona, muito esperta, foi logo conquistando todos na família.
Mas o gato enciumado queria distância da gata intrometida. Talita era uma gatinha muito amável e fazia de tudo pra conquistar a amizade de Bolão.
__ Oi Bolão, vamos dar um passeio lá fora, o dia está tão bonito.
__ Não, vai você! Responde o gato bonachão.
Pensando, que assim que ela saísse pela porta ele a trancaria, deixando Talita pro lado de fora, assim teria um pouco de sossego, foi o que ela veio fazer ali na sua casa, roubar a sua paz. Continuava o gato pensando, trancando os dentes de ódio. Nem cochilar mais podia, com Talita tagarelando em seu ouvido o dia inteiro.
Nisso, que Talita saiu, Janjão aproveitando a porta aberta invadiu a sala com a intenção de zuar um pouco com a cara do gato, que se espreguiçava de sono.
__ Surpresa! Visita.
__ O que é que você quer aqui Janjão? A Talita está de saída e eu estou no meio do meu cochilo.
__ Bolão, Só vim te fazer uma pergunta, até quando acha que os seus donos vão suportar um gato preguiçoso como você, que não tem serventia pra nada? Eu não sei se percebeu, até substituto, ou melhor, uma substituta você já tem, outro dia ouvi a nossa amiga Maricota dizer que se você não conseguisse emagrecer ela ia te levar para uma dessas Ongs que cuidam de animais abandonados. Era mentira de Janjão, só estava falando isso pra aborrecer o gato bonachão.
Bolão olha assustado pra Janjão, enquanto esse se divertia por dentro com a expressão de medo estampada na cara do pobre gato.
__ Tá brincando, que a Maricota vai fazer isso comigo?
__ Duvida? A Talita com aquele jeitinho meigo roubou o teu lugar, eu não sei se percebeu, mas a Maricota está toda derretida pro lado dessa gata de lacinho, olha onde a gata está agora, no colo da Maricota lá fora no banco do jardim, enquanto você fica aqui dentro jogado nessas almofadas.
O gato choramingando pede socorro!
__ Janjão! Você que é o meu amigo, me ajuda! Não quero ir embora daqui.
__ Isso só vai depender de você, pra começar, vai já lá pra fora passear nos jardins com a Maricota, precisa tomar um ar, espichar as patas.
__ Há Janjão, tem que ser agora? O sol está tão quente, está me dando uma moleza.
__ Olha a ONG?
__ Ta bom! Eu vou, mas espero que Maricota não fique muito tempo nos jardins, porque estou morrendo de sono.
E sai Bolão se arrastando na direção de sua dona, essa quando o vê o felicita com alegria.
__ Olha quem está aqui Talita, é o bolão, eu acho que ele está com ciúmes!
Maricota pega o bichano em seu colo enchendo-o de beijos. Na sala o telefone toca e a boa senhora se apressa em atender, o tempo tinha virado anunciando forte temporal, estava ventando, termina que a força do vento bate a porta com força logo assim que Maricota entra dentro de casa deixando Bolão e Talita para atrás, que vinham no encalce de sua dona, os bichanos ficam desesperados no meio do vendaval, completamente indefesos, nem precisa dizer que Bolão era o mais  histérico agarrado a marquise da varanda, esse miava aos quatro ventos por socorro.
__ Socorro, socorro, acudam dois pobres gatos, estamos presos aqui fora.
Como resposta só se ouvia a rajada do vento que passava por eles, arrastando tudo a sua volta.
__ O pior Bolão, que vem ai uma tremenda tempestade.
__ E agora Talita, nós vamos morrer! Diz o gato trêmulo de medo.
__ Calma Bolão, logo a Maricota lembra que ficamos aqui fora e vem ao nosso socorro, mas tem outro jeito, podemos subir naquela árvore e entrar pela janela do sótão.
__ Mas é muito alta, eu não consigo!
__ Faz um esforço Bolão, eu te ajudo!
Talita tenta erguer o gato para cima do galho da árvore, mas ele estava muito pesado, a chuva caia torrencialmente, termina que os dois gatinhos perdem o equilíbrio e são arrastados em meio a correnteza sendo levados pela enxurrada para dentro de um bueiro, que alguém irresponsavelmente tinha deixado aberto, levados pela força da água os dois foram parar em um matagal alguns quilômetros longe de casa.
A gata Talita foi a primeira a se recuperar, encontrando ainda Bolão desacordado, a gatinha apavora- se vendo-se em um lugar desconhecido, tenta reanimar o gato Bolão, sorte que ele logo volta a si e foi uma histeria só, quando olhou a sua volta com lama até o pescoço perdidos no meio do nada.
__ Talita, onde nós estamos? Nós morremos?
__ Não sei Bolão, estou com medo, logo vai anoitecer e sinto-te dizer que estamos perdidos!
Bolão entra em desespero e se põe a chorar e espernear no meio da lama.
__ E agora Talita, o que vai ser de nós?
De repente tem uma coisa se mexendo vindo em suas direções, Bolão dá um pulo, indo se refugiar no colo de Talita.
__ Tem alguma coisa vindo ai!
__ Vai pra lá Bolão, é apenas um rato, vai me dizer que você também tem medo de ratos?
Quando o rato saiu da água os gatos levaram um susto, porque se tratava de um rato gigante com estilo de boxeador, esse estava bastante irritado e foi logo perguntado, se pondo em posição de ataque:
__ Que barulheira é essa no meu pedaço, o que vocês estão fazendo aqui?
Como os dois não respondiam, chocados diante da figura do rato gigante, esse partiu pra cima de Talita agarrando-a pelo pescoço surrando-a violentamente, o gato Bolão, nervoso tremia dos pés a cabeça diante de tanta violência, o seu primeiro pensamento foi de fugir para salvar a própria pele, mesmo porque o rato gigante não estava pra brincadeira, surrava a pobre da gata sem dó e sem pena.  Bolão apesar de ser muito medroso não podia dar as costas deixando a pobre da Talita naquela situação, era preciso agir rápido, de repente lhe subiu uma revolta fazendo seu sangue ferver, olhando a sua volta se depara com uma barra de ferro e em um piscar de olhos Bolão se joga em cima do rato acertando sua cabeça com um golpe certeiro com o instrumento, esse cai desmaiado. Bolão pega Talita no colo fugindo dali rapidamente antes que o rato gigante se recuperasse, na corrida encontra com o cão Janjão que vinha em seu socorro.
__ Janjão, que bom que você nos encontrou. Diz Bolão arfando com Talita no colo.
__ Foi fácil encontrar vocês, a vizinha viu quando estavam sendo levados pela correnteza caindo direto no bueiro, sabendo que este desaguava por esses lados, aqui estou para salvar vocês, mas vejo que cheguei tarde, parabéns Bolão, você é o herói do dia, salvou a Talita do rato gigante.
__ Eu um herói Janjão?
__ Claro Bolão, se não fosse você a pobre da Talita ia virar purê nas mãos daquele pavoroso rato estressado, de longe assisti a sua presteza! Agora me diz Bolão, aonde você foi buscar tanta coragem para atacar o rato gigante e salvar a nossa amiga?
__ Não sei Janjão, na hora eu estava com muito medo, nem eu acredito que eu fiz isso.
__ Você foi mais que valente, foi um super-herói nocauteando o monstro, salvando a mocinha, quando você viu a Talita sendo espancada a solidariedade falou mais alto que o medo. Estou mesmo orgulhoso de você!
Talita acorda a tempo de ouvir toda conversa, embora ainda atônita também estava surpresa do ato heroico do gato que tinha fama de preguiçoso e muito medroso e de um minuto para outro se tornou  esperto, valente.
__ Será que posso dar um abraço em meu herói?
__ Talita! Como está você?
__ Graças a você estou viva? Disse Talita emocionada.
__ Pessoal, vamos pra casa que a Maricota está morrendo de preocupação, ela se culpa por ter esquecido vocês lá fora no meio do temporal. Lembra Janjão ajudando a carregar Talita, essa estava de dar pena, com o corpo todo em ferida.
 Chegando em casa Talita e Bolão foram recebidos com festa por Maricota, depois de cuidar dos ferimentos da pobre   gatinha se pôs a cuidar de Bolão, que mais parecia um príncipe todo esparramado no sofá, recebia biscoito amanteigados dado na boca por Maricota.
Depois desse episódio foi difícil aguentar a folga do gato Bolão, o ato de heroísmo lhe subiu a cabeça, de medroso e preguiçoso passou a dar uma de valente e convencido, chegando a disputar a segurança da casa com Janjão.
Agora veja você, que falta faz a alta estima na vida de um sujeito, quer dizer de um gato preguiçoso!
                           Dilma Lourenço Moreira

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