sábado, 16 de junho de 2012

O salvador sertanejo




  Tonico se distrai brincando com um carrinho de madeira na porta do humilde casebre. Ao seu redor o sol a pico queimava feito brasa. A seca estava matando plantações, os gados morriam de sede no pasto, a água que restava na cacimba nem os animais queriam beber.
O sol batia forte abrindo fendas ferindo sem dó o solo do nordeste, enquanto o sertanejo de olhos velados rogava aos céus uma gota de água.
Tonico, apesar de ter apenas seis anos de idade também se preocupava em vigiar o céu, volte e meia, entre uma brincadeira e outra corria os olhinhos esperançosos a procura de uma nuvem, o sol a pino fervilhava a catinga deixando rastro de destruições pra todo canto que se olhava, até que em um belo dia o menino teve uma surpresa, ao olhar para o céu tinha uma nuvenzinha bem próximo de sua choupana, mais exatamente em cima do telhado de sua casa. Tonico mal acreditava no que os seus olhos viam e radiante, diante da nuvenzinha chama os pais para verem a novidade.
__ Pai, mãe, correm aqui rápido, tem uma nuvem em cima da nossa casa!
Seu Joaquim e dona Angelina correm pro terreiro da casa assustados com os gritos do menino.
__ Mainha, mainha, olhe pra li! Diz Tonico, apontando com o dedinho pra cima do telhado.
Pai Joaquim, de olhos brilhantes exclama:
__ Não é que é uma nuvem mesmo, muié! Pega as bacias, destampa a cacimba que vai cair chuva, com a graça de Deus esse ano a lavoura está salva!
A mãe ria e chorava de contentamento, não conseguia tirar os olhos da pequena nuvem.
Logo a notícia correu feito pólvora entre os sitiantes vizinhos, que nas terras do seu Joaquim tinha aparecido uma nuvem.
Acabou que a pequena nuvenzinha se tornou uma atração, vinha gente de longe, com baldes e vasilhas nas mãos. Em volta da cabana do seu Joaquim se juntou muita gente, com a esperança de reter um pouco do líqüido sagrado, parecia uma romaria, tinha gente que até se ajoelhavam diante da pequena nuvenzinha, as beatas pegavam firme na novena, rogando a São José que mandasse logo uma chuvinha, porém não demorou muito, uma brisa um pouco mais forte carregou a pequena nuvem, essa foi se afastando devagarzinho flutuando no céu, foi pra longe do nordeste, acabando com a esperança do povo nordestino. Esses, com ar entristecidos, decepcionados voltam para suas casas com cuias e baldes vazios.
Tonico, sentado na porta de casa acompanha também com o olhar entristecido o mundaréu de gente indo embora de cabeça baixa, de volta a suas vidinhas sofridas, até que o menino tem uma ideia, levanta ligeiro, entra dentro de casa retornando com uma corda nas mãos, saindo em disparada em rumo a estradinha de terra batida, a mãe curiosa pergunta:
__ Aonde vai Tonico, com essa corda na mão?
Esse se volta sorridente apontando para nuvem.
__ Vou laçar aquela nuvem, trazer ela de volta, nem que eu tenha que montar nela feito garrote, vou buscar chuva aqui pro nordeste, logo estarei de volta, a benção mainha!
__ Deus te abençoe, meu filho!
A mãe balança a cabeça sorrindo, achando graça da inocência do menino.
__ Não vá muito longe, Tonico! Logo vai anoitecer!
Esse se volta sorrindo, acenando com as mãos pequeninas na direção da mãe, dando Adeus pra mainha.
E assim o menino galeguinho com cabelos e pele queimado pelo sol quente do agreste, corria jogando o laço na direção da nuvem, vestindo apenas um calção, pés descalço, quase que se confundia com o chão de terra batida do carreirinho rachado pela seca do nordeste.
O tempo foi passando e nada do menino voltar, dona Angelina e o seu Joaquim tudo que faziam era chorar, se a vida estava ruim, pior estava agora com o sumiço de Tonico, até que um dia apareceu na porta de dona Angelina e de seu Joaquim um rapazote segurando uma nuvem gigantesca presa em uma corda.
Com um sorriso largo, quase morto de saudades Tonico dá um forte abraço no pai e na mãinha, essa com o rosto banhado em lágrimas, pergunta:
__ Onde você estava menino?
 O garoto sorrindo, aponta para o céu.
__ Vocês reconhecem essa nuvem? Deu trabalho, mas consegui laçar essa danada. Veja, está quase estourando.
Tonico mal termina a frase e foi água pra todo lado regando lavouras, transbordando riachos. Em todo canto do nordeste só se ouvia o clamor de vozes dos sertanejos dizendo muito obrigado.
E assim nunca mais ouve seca no nordeste.
Quando os açudes começavam a secar, logo chamavam o menino Tonico, que ficou conhecido como o salvador do nordeste.
 E assim, saía pelo mundo afora o herói do nordeste, com seu laço poderoso para laçar mais uma nuvem e refrescar a seca do agreste.
 Não demorava muito surgia o menino vindo do sul, ou do sudeste, arrastando, trazendo em seu laço uma nuvem carregada de águas pra fazer chover no chão árido do nordeste, terminando enfim para sempre o sofrimento do povo nordestino.
Esses, não mais padecem, não são mais um povo sofrido. Os açudes transbordam com tanta água, a lavoura é farta e todo mundo vive feliz, sem ter que deixar suas terrinhas.





Dilma Lourenço Moreira



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