sábado, 25 de maio de 2013

Um sonho de criança



                      

Ivan desde menino tinha um sonho, ser capitão de navio. Ele passava horas na orla do mar assistindo os transatlânticos desembarcar no cais, o cheiro da maresia embalava a alma do garoto sonhador, que se deixava levar pelas ondas do mar viajando mundo afora.
Ainda na adolescência Ivan entrou na escola da marinha se tornando um aluno aplicado, responsável, se empenhando cada vez mais em busca da realização de seu sonho. Feliz, sorria com o vai e vem de navios a sua volta, imaginando que logo a sua vida seria sobre as águas do oceano, seu íntimo se enchia de contentamento inspirando a brisa refrescante que vinha do mar aberto correndo livre sobre o céu.
O tempo passou e o menino enfim, já era um rapaz continuando firme no leme a caminhando do tal sonho dourado, desgarrou de pai e mãe para viver um desejo de criança. Ivan ainda não era um capitão, mas tinha uma função importante dentro do navio, esse tinha uma vida solitária na correria do dia a dia entre trabalho e estudos, não tinha tempo para grandes amores, mesmo porque as mulheres que passaram por sua vida eram passageiras e o amor que sentia por elas, idem, chegando ao fim com término da viagem.
 E assim Ivan continuava seguindo o rumo do seu destino traçado por ele mesmo, vencendo pacientemente patentes por patentes com o intuito de alcançar o seu objetivo, até que em um belo dia primaveril é chegado à hora do garoto sonhador que um dia foi viver na pele o seu grande sonho. Na proa do navio está acontecendo uma grande festa, Ivan está sendo condecorado como capitão do maior transatlântico do mundo. O capitão sorria orgulho com a medalha brilhando no peito, porém lá no fundo de seus olhos passa uma sombra de tristeza.
     Sargentos, coronéis, marujos e cadetes que acompanharam a sua trajetória lhe batem continência o parabenizando por seu sucesso.
__ Parabéns capitão! Diz um cadete sorrindo. Quando eu crescer quero ser igual ao senhor!
Ivan abaixa a cabeça deixando agora a tristeza transparecer, que teima fincar raiz em seu peito, enquanto discretamente com mãos nervosas seca uma grossa lágrima que lhe escorre pelo rosto.
__ Não filho, não queira ser igual a mim!
__ E por que não capitão, chegar a sua posição não é motivo de orgulho?
__ Sim, hoje estou realizando um sonho, mas para viver esse momento deixei para trás as pessoas mais caras desse mundo, ignorei a tudo e a todos, sonhei esse tempo todo sozinho, não me importei com mais ninguém, só em minha realização, hoje estou aqui no topo desse leme, porém me sinto vazio, como se faltasse um pedaço de mim que ficou em meu passado.
__ Capitão, nada de tristeza, hoje é dia de comemoração, não vai deixar uma mulher acabar com a sua festa!
O capitão Ivan com o olhar triste, perdido ao longo do oceano, responde:
__ Não me refiro a esse tipo de amor, cadete, para alcançar o meu objetivo me afastei demais da minha família, nem sequer permiti que compartilhassem comigo o meu sonho!
__ É verdade capitão, não conhecemos ninguém da sua família, o senhor tem pai, mãe, irmãos?
__ Claro que sim, cadete! Apesar do meu jeito frio não fui gerado em uma chocadeira, no entanto faz muito tempo que perdi contato com eles! Saí de casa muito cedo, aos treze anos de idade para estudar em outra cidade, eu estava cego, muito ocupado correndo atrás do meu sonho, no começo mamãe sempre me escrevia, eram cartas cheias de saudades e carinhos, mas eu na época não tinha tempo para perder com melodramas e fui deixando essas missivas regadas de amor de mãe, de lado, ignorando por completo o afeto da família, nem sequer me preocupava em responder por achar que esse sentimento me sufocava, me enfraquecia perante o rumo que eu tinha traçado para a minha vida, hoje sou um homem realizado, porém com medo de voltar ao meu passado, nem sei como vou ser recebido ao retorno do meu lar e pior, tantos anos sem notícias que nem sei se meus pais ainda estão vivos ou mortos, tenho consciência que devo ter feito eles sofrerem com o meu abandono, consegui realizar o meu sonho de menino, em compensação fui omisso na parte familiar,  um filho relapso, egoísta, ingrato, colocando na frente apenas o meu desejo,  por conta desse meu comportamento falho, cadete eu te digo, não sou um exemplo a seguir, corra atrás dos seus sonhos sim, mas nunca desista de sua família, sonho realizado, sem ter com quem compartilhar se perde a importância, se perde o brilho! O pior cadete, o tempo não volta e a colheita é necessária, o preço de ter um sonho realizado só é válido e valoroso quando não precisamos causar dor a ninguém para alcançar um sonho desejado!

                       Dilma Lourenço Moreira   




 

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