quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um choque de realidade






A professora Carol convidou seus alunos para fazer uma visita na casa de repouso dos idosos.

Arturzinho reclama:

__ Por que em uma casa de repouso, professora? Vamos ao orquidário, zoológico, cinema! É mais divertido.

A professora Carol responde, sorrindo:

__ Nem tudo na vida é diversão, vamos prestar a nossa solidariedade aos nossos amáveis idosos e além do mais, turma, essa visita não é obrigatória, vai quem quiser. Vamos passar uma tarde na companhia de pessoas experientes, conhecerem suas histórias de vida, tenho certeza que vai ser muito gratificante para ambas as partes. Sugiro que cada um leve um prato de doces, ou salgados para o lanche.

Na tarde seguinte à classe estava lotada, com os alunos animados e ansiosos para começarem logo a visita, surpreendendo a professora Carol. Até mesmo aqueles que não eram adeptos a excursões compareceram e assim logo após a leitura da chamada saímos. O recanto dos idosos era ali perto e fomos caminhando seguindo a nossa professora. Quando lá chegamos fomos recebidos pela diretora da instituição, que já nos esperava nos encaminhando para um amplo salão, onde alguns idosos nos aguardavam para o lanche da tarde. No começo, ficamos tímidos todos em volta da professora. Os vovôs e as vovós estavam do outro lado da sala, com olhinhos curiosos sorriam para nós, a diretora da casa de repouso se aproximou os apresentando, dizendo seus nomes e idades, falou de suas doenças, uns sofriam de diabetes, outros, problemas nos rins, cardíacos, etc. Ou seja, além da idade avançada ainda tinham que lutar com as doenças, e continuou a diretora, mais os que estão aqui são os que podem sair da cama, me acompanhem, venham conhecer os que estão na enfermaria, acamados.

A professora Carol percebe os olhinhos assustados dos alunos, diante dos rostos abatidos quase cadavéricos dos velhinhos da enfermaria, dava pra sentir os coraçõezinhos das crianças apertados, e mais uma vez a diretora explicou: Esses pacientes têm doenças crônicas, já não conseguem sair do leito, quase não ouvem e dormem a maior parte do tempo. A professora se aproxima de um dos leitos, acompanhada pelo grupo de alunos apreensivos, ela chega bem perto de um dos idosos, acariciando seus cabelos e mãos, esse, retribui com um sorriso o carinho, com voz macia, a professora conversa com o velhinho acamado sugerindo a turma que fizesse o mesmo nos outros leitos, pois tudo que aqueles idosos necessitavam agora era de carinho e de suas atenções.

E assim, as crianças fizeram, se dividindo em grupos em volta dos leitos. Não demora muito, onde antes se via dor e tristeza, de repente a luz se fez, dava para se ouvir até os sorrisos dos vovôs se divertindo com as perguntas das crianças. Para aqueles que podiam se alimentarem, a professora pediu que as crianças os ajudassem a tomar o chá com biscoito, esse foi um momento muito mágico pra nós. A felicidade de estar sendo útil, em troca era retribuída com singelos sorrisos e assim nos despedimos dos vovôs da enfermaria, com um longo abraço. Lembrarei para sempre daqueles olhinhos carregados de ternura. Logo, fomos chamados para o salão principal onde o lanche estava sendo servido. Encontramos com os velhinhos que tínhamos nos recebidos na entrada, esses estavam sentados em volta da mesa nos esperando. Agora estávamos mais a vontade e sabíamos o que fazer. Se juntamos aos vovôs e vovós, cantamos e dançamos, rimos de suas piadas e ouvimos suas histórias de vidas tristes e alegres. Do meu grupo, a vovó mais animada era a dona Palmira, cantava e dançava todo tipo de música, estava com 87 anos e dizia se sentir uma garotinha. Em sua juventude foi vedete, não construiu família, passou seu tempo brilhando nos palcos da vida. Ao contrário de dona Palmira era a dona Marinalva, que passou o tempo todo reclamando que tinham lhe roubado os brincos e o relógio e dizia mais, com uma profunda mágoa:

__ E não satisfeitos ainda roubam a minha pensão. E tem dia, que nem comida me dão.

 Aninha ficou indignada.

__ Mas isso é um caso de polícia!

A diretora da instituição logo se aproxima, explicando que não levasse ao pé da letra o que a vovozinha dizia:

__ A nossa Marinalva está muito velhinha, não diz coisa com coisa, aliás, todos aqui então em idade avançada, ela deve estar sentido falta de suas jóias, os filhos dela levou para casa deles, nós aqui não permitimos nada de valor, com os pacientes.

Outra que também se queixava era dona Ivone. Ela estava com 75 anos, era professora, disse ter duas filhas e 6 netinhos. Gostava de dançar e ir a praia, mas que agora estava ali no asilo. Disse a última palavra com certa tristeza, o que não passou despercebido por Gabriel.

__ O que foi vó Ivone? A senhora não gosta daqui?

__ Fazer o que, meu filho! Ficaram com a minha casa e me jogaram nesse lugar. Minhas filhas dizem não ter tempo de cuidar de uma velha caduca.

Lá no cantinho do salão tem outra vovozinha muito triste, Marília se aproxima.

__ E a senhora vovó, por que esta tristeza toda?

__ Minha família me abandonou, porque eu não sirvo mais pra nada. Respondeu a avozinha, chorando.

Vó Palmira se aproximou, tentando acalmar a pobre senhora.

__ Coitada! Desde que chegou aqui está sempre deprimida. Chora o tempo todo, a Bernadete é minha vizinha de quarto. Até a pouco tempo tinha casa, marido, filhos e netos. Há menos de três anos recebeu um diagnóstico constatando que ela tinha mal de Alzheimer. Seu marido, apesar de ser mais velho que ela, estava bem, porém ele não teve paciência para cuidar da esposa doente. Sua cabeça já não era mais a mesma, se queixava de um grande vazio na mente, tinha dia que não sabia nem qual era o nome dela, não sabia mais cozinhar e nem servia pra cuidar da casa. Os filhos também não tinham tempo para cuidar da mãe, pro marido ela deixou de ser útil, dizia que ela tinha se tornando um estorvo para ele e então pai e filhos decidiram internar–la nesse asilo, por ela não ter mais serventia na vida deles.

E assim passamos a tarde ouvindo os velhinhos contando suas histórias, como se esta tivesse se passando há muito tempo atrás, era como se eles fossem meros espectadores de uma vida longicua.

Aquele, com certeza foi um dia marcante para a turma da sétima série. Eu olhava os rostinhos sorridentes daqueles velhinhos abandonados, sentindo um nó na garganta. Fizemos de tudo para que esses tivessem uma tarde feliz. Dançamos, cantamos e nos emocionamos com as histórias dos vovôs, mas saí de lá com uma certeza. Nenhum familiar meu, se depender de mim não irá para o asilo, era triste e até mesmo revoltante presenciar a que ponto chega a ingratidão de um ser humano.

Quando terminou o horário de visitas nos despedimos dos avozinhos sentindo um grande pesar por aqueles desvalidos de afetos. Era constrangedor e decepcionante presenciar um ser humano depois de viver tanto, ser abandonado pra morrer sozinho.

Ao retornar a escola era visível a cara de tristeza e indignação em nossos semblantes, fomos todos direto para classe, ficamos sentados por um longo tempo em silêncio, cada um envolvido com o seus pensamentos, chocados com a realidade deprimente dos idosos que lá conhecemos. Era um verdadeiro descaso com o ser humano, ninguém merece ter um final de vida, longe de seus entes queridos.

__ O que é isso, crianças, que tristeza é essa? Foi tão ruim assim o passeio? Pergunta a professora, tentando colocar animação na voz.

Foi Arturzinho quem quebrou o silêncio.

__ Professora, pensei que só as crianças fossem abandonadas, eu acho que não deveria existir orfanatos e nem asilos!

__ Não é bem assim, Arturzinho! Esse tipo de instituição tem que existir. O orfanato, para abrigar as crianças abandonadas e o asilo, para cuidar dos idosos que não tem familiares para ampará-los em sua velhice e se não tem paciência e nem tempo para cuidar desses, preferem passar o problema para o governo, ou internam seus idosos em clínicas particulares.

__ Me desculpe professora! Retrucou Marília. Mas o que eu vi ali é um verdadeiro descaso dos familiares, todos aqueles velhinhos jogados a própria sorte. Era nítido, a magoa no olhar deles, pra mim, asilo ou clínica de repouso é um lugar que os familiares abandonam os velhinhos pra morrerem.

__ Como eu já disse, esse tipo de instituição é um mal necessário, alguém tem que cuidar dos idosos e eles não estão abandonados a própria sorte, o governo se responsabiliza por eles.

__ Não professora! Não estou me referindo a instituição em si, é justo que haja esta proteção para os idosos que não tem ninguém no mundo para ampará-los em seu final de vida, mas esse não é o caso de todos aqueles idosos que estão internados naquela casa de repouso que acabamos de visitar. Tá, digamos que um por cento dos idosos que estão internados na clínica de repouso, hoje não tenha mais família para cuidar deles, mas e o resto? O que estão fazendo longe da família? Para mim, esse tipo de lugar está se tornando um comércio, por ser mais cômodo para a família, é uma forma de descartar dos seus idosos, sem culpa. Tem algumas casas de repouso que são até bem luxuosas. Outro dia fui visitar uma avó de uma amiga minha em uma dessas clínicas de repouso, agora é assim que se chama o asilo, a pobrezinha da vó dessa minha amiga estava triste, isolada em um canto, dizia que não queria ficar ali, chegou a chorar implorando pra que a filha a levasse pra casa, a coitada nem sequer foi ouvida, a mãe da minha amiga, se ficou dez minutos com a mãe foi muito. Logo nós viemos embora, porque ela disse que tinha muito que fazer e só tinha ido visitar a mãe naquele dia, porque a Ritinha, a minha amiga estava com saudades da avó. Saindo do asilo, sabe o que a mãe da Ritinha foi fazer? Direto pro salão de beleza, não demorou muito a avó da Ritinha morreu, se sentindo um cão sarnento que foi abandonado. Eu acho que o governo deveria ser mais rigoroso e não deixar abrir esse tipo de comércio e se permitisse com uma cláusula, seria apenas para aqueles que não tem família para ampará-los, do contrário, filhos e parentes deveriam se responsabilizarem por seus idosos. Deveria ser lei, na falta do desamor por esses.

__ Concordo com você Marília, mas os velhinhos estão assegurados através do instituto do idoso e os velhinhos que estão no asilo não estão jogados a própria sorte, tem uma equipe de profissionais bastantes competentes, que são pagos para cuidarem dos nossos idosos.

__ Mas nada se compara viver em volta do carinho da família, por mais luxuosa que a clínica seja. Quanto ao estatuto do idoso já ouvi falar dessa lei, mas ela só cabe os maus tratos com idosos, a lei mais uma vez foi amena. Maus tratos aos idosos, deveriam ser considerados crimes hediondos. Imagine um pai sendo espancado por seu filho, ou neto espancarem avós, como será que essas vítimas se sentem em seu íntimo, é uma dor moral que deve ferir a alma, no entanto professora estou falando de responsabilidade, afeto, gratidão. A lei deveria ser mais rigorosa para punir essas pessoas que jogam seus entes queridos no asilo, por simples fatos desses estarem velhos e doentes.

Todos estavam muito emocionados, alguns choravam penalizados com a situação dos idosos, que um dia foram tão útil para sociedade.

Bentinho disse, soluçando:

__ Professora, eu não quero ficar velho, tenho medo que minha família me abandone. É muito ruim ser rejeitado, será que os familiares que internam seus pais, seus avós em um asilo, conseguem dormir em paz? Porque eu me sentiria envergonhado, a ingratidão é um dos sentimentos que mais aniquila um ser humano.

A professora Carol também estava bastante sensibilizada, nunca tinha visto os seus alunos tão emocionados. Olhando a carinha deles, com pesar depois de dar um longo suspiro, finaliza:

__ É turminha! Quem sabe um dia a nossa lei não enquadre esses filhos ingratos, que hoje estão livres da lei do homem, mas não livres da lei de Deus!

Gabriel, lá no fundo da classe, pergunta:

__ Professora! Não é a senhora mesmo que diz, que Deus não castiga ninguém?

__ Sim, Gabriel! Deus não castiga ninguém, mas permite que os seus filhos sofram quando esses insistem em caminhos errados, para que aprendam a ser bons com os seus semelhantes e não faça nada ao próximo, que não deseja a si próprio, e não pensem que Deus está sendo cruel, ou omisso, nosso pai maior não gosta de ver seus filhos sofrendo e também não o abandonam a própria sorte. Ao nascermos, recebemos todo amparato que necessitamos para a nossa orientação moral e espiritual dentro de uma família. Aquele pai, aquela mãe, mesmo não sendo biológicos são os anjos protetores que temos aqui na terra, que tem a incumbência de orientar os seus tutelados em sua evolução espiritual, esses anjos de tudo fazem por suas proles, muitas vezes até se anulam como pessoa, só pela satisfação que esses filhos cresçam e sejam bem sucedidos em sua caminhada em todos os sentidos de sua vida. E mesmo assim, quando esses anjos estão em meio a ingratidão eles rezam para que seus filhos não ser percam na escuridão.

                   

UM FELIZ DIA DOS PAIS

             



                          Dilma Lourenço Moreira


Um comentário:

  1. Os idosos merecem apoio e carinho dos filhos e principalmente consideração por tudo que fizera e como pais, bela postagem.
    Beijo.

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