segunda-feira, 6 de junho de 2011

O beija-flor guloso





Tico é um beija-flor bem pequeno, quando está voando quase que ninguém o enxerga, mas o que ele tem de pequeno, tem de esperto.

Os beija-flores maiores não conseguem acompanhar o ritmo de Tico na corrida, por serem grandes e pesados, dessa forma, Tico consegue voar muito mais rápido levando vantagem em cima dos outros beija-flores. Esses ficam furiosos com o pequeno Tico, que tem apetite de gente grande, quando se apossava de um bebedouro secava-o em três tempos e isso deixava os seus companheiros beija-flores revoltados, causando uma grande confusão quando encontravam o bebedouro vazio.

O pequeno beija-flor por ser mais veloz chegava sempre na frente e com o grande apetite que tinha bebia tudo, não deixando nada pra ninguém, deixando os outros pássaros roxos de raiva, a bronca era geral.

__ Tico, seu anãozinho guloso, fominha! Deixa um pouco de garapa pra nós também! Reclamavam os outros beija-flores.

__ Xi!!! Essa acabou! Vamos pra outro?

E sai Tico voando na frente dos seus companheiros em toda velocidade para outro bebedouro, deixando os outros pra trás comendo poeira.

Outro dia, o beija-flor azulão deu uns pega em Tico.

__ Oh Pigmeu voador, quem você pensa que é! O Airton Sena do Brasil? Corre sempre na frente da gente, toma a garapa até se fartar e depois nós que ficamos com o resto, isso quando sobra algum? Você bem que podia ser menos guloso e pensar um pouco mais nos outros!

__ Olha Azulão, tem bebedouro pra todo mundo e além do mais não tem ninguém aqui desnutrido, olha você! Forte e grandão!

__ Por isso mesmo seu guloso que preciso me alimentar melhor, estamos nas primeiras horas da manhã e você sozinho sugou todos os bebedouros da redondeza. As frutas, você detona em segundos, eu não sei como agüenta comer tanto, sendo um pássaro tão pequeno, se você continuar comendo desse jeito vamos ter que demarcar o território, caso contrário vamos morrer de fome, já que você é tão egoísta, só pensa em você.

A mulher do Azulão também estava nervosa, apontando a asa pro bico da pequena ave, dizia em um tom ameaçador.

__ É isso mesmo seu beija-flor anão metido a corredor de fórmula um. Acha que só você tem barriga? Gritava a mulher do Azulão na cara do pequeno Tico, se vendo acuado.

Tico voltou pra sua árvore, acabrunhado, pensativo, não sabia que estava aborrecendo os seus companheiros.

__ O que foi filho, por que está tão triste?

__ Mãe, o Azulão veio falar comigo dizendo que eu estou roubando a garapa deles, me chamou de guloso, egoísta! Não entendo! O bebedouro não é livre, toma quem chegar primeiro!

__ É, o Azulão tem razão de te chamar assim, filho! Você está sendo mesmo guloso?

__ Mãe, eu passei a minha vida inteira, sendo motivo de piadas para os outros beija-flores, ainda hoje me chamam de anão corredor, pigmeu voador, etc. Eu tive que superar tudo isso e ser  melhor que eles, porque, caso contrário eu não teria sobrevivido, não deixavam nem eu me aproximar dos bebedouros e até me batiam porque eram mais fortes que eu, agora eu estou mais rápido que eles e isso os estão incomodando. Tem bebedouro pra todo mundo, mas o Azulão acha que não está sobrando muito para eles. Só porque são grandões e fortes acham que tem que tomar mais garapa que eu.

__ Tico, meu filho! Fico muito satisfeita que você superou a implicância que os outros beija-flores tinham com você, mas também não precisa jogar na cara deles todo o momento, que é melhor que eles.

__ E por que não, mãe? Eles riem do meu tamanho, me xingam e agora você diz que eu não preciso provar que sou mais rápido que eles, se esta é a minha única habilidade. Quando descobriram que eu podia voar muito mais rápido deixando-os para trás, começaram com a implicância me chamando de guloso, egoísta, fominha. Pra mim eles estão é com dor de cotovelos, se queixando, querendo se passar por vítimas e eu, o pequeno anãozinho aqui, virou o vilão.

__ Tico, o importante é que você conseguiu a sua alto- estima de volta, isso não quer dizer que tenha que competir a todo o momento humilhando os seus amigos, com isso você está cometendo os mesmos erros que eles, quando te diminuíam. Mas pode deixar que eu vou falar com o Azulão e a turma dele.

__ Não, mãe! Por favor, deixa que eu resolvo isso. Ser chamado de pigmeu voador, anão, ainda vá lá, agora filhinho da mamãe, vai ser de mais!

__ Olha lá, em Tico! Não vá se meter em confusão!

__ Deixa comigo, mãe! Aprendi a enfrentar os meus desafios desde que nasci, nunca fugi de uma briga, não vai ser agora que vou me acovardar.

Só foi o tempo de dona Beija se afastar, Azulão e sua turma se aproximam de Tico, com ar de desafiadores.

__ Olha o guloso aí, gente! Disse alguém da turma, querendo provocar.

__ Eu não sou guloso! São vocês que estão ficando lerdos, velhos e gordos! Acho que a idade está pesando!

 __ Eu vou te mostrar quem é velho! Disse Azulão partindo para cima de Tico com violência, deixando-o tonto com varias bicadas na cabeça.

Velhos sim, mas não somos anões e continuamos com o mesmo apetite de antes. Você é pequeno, não precisa comer tanto, portanto, de hoje em diante você vai se alimentar de apenas um bebedouro. Tico ainda tentou reagir partindo para cima de Azulão, o qual a turma toda logo saíram em defesa do chefe.

E assim foi feito, se reuniram e decidiram deixar o bebedouro menor para Tico, com a condição que ele não podia chegar perto dos demais bebedouros.

Depois disso, Azulão e sua turma levantaram vôo, gargalhando, se divertindo da cara do beija-florzinho, que só parecia indefeso.

Tico, valente como sempre passou a fazer guarda em seu bebedouro. Mesmo em baixo de chuva ele não abandonava o seu posto, dizia para si mesmo, se é isso que eles querem, assim será feito, pensava ele, se eu não posso beber da garapa deles, eles também não vão beber nenhum golinho da minha.

Então, o pequeno beija-flor desse dia em diante passou a lutar bravamente para defender o seu bebedouro, tinha sempre que por para correr os engraçadinhos que tentavam roubar de sua garapa, levando a pequena ave a entrar em luta constante com os seus companheiros.

Logo, Azulão e sua turma viram que não fizeram um bom negócio, pois não sabiam o que estava acontecendo, que a água do bebedouro deles estava secando, sendo assim resolveram também se apossar da garapa do pequeno beija-flor, formando uma verdadeira guerra entre eles, mesmo porque, o pequeno beija-flor também agora tinha formado sua turma e entre eles estava a mamãe dona Beija, que não ia deixar o seu filhote sozinho nessa guerra, mesmo ela sendo contra a violência, mas Tico estava decidido em defender o seu território, agora era uma questão de honra, com o peito estufado, dizia:

__ Não tenho medo! Foram eles que me quiseram por fora dos outros bebedouros, agora que agüentem, porque esse é meu e ninguém tasca.

Mamãe beija-flor estava triste, eles estavam se gladiando entre si, pareciam o bicho homem fazendo guerra por nada, dona Beija pensava em uma maneira de terminar com aquela violência. Até a pouco tempo, todos compartilhavam do mesmo bebedouro sem brigas, tudo era muito harmonioso no mundo dos beija-flores, era preciso trazer essa paz de volta, mas como?

__ Mamãe! Mamãe! Era Tico que vinha voando, quase sem fôlego.

__ Calma filho! O que está acontecendo?

__ Uma verdadeira catástrofe! Os bebedouros do Azulão secaram de vez. Ele e a turma estão planejando invadir o meu território.

__ Tico, eu tive uma ideia! Isso veio mesmo a calhar! Para a paz voltar a reinar outra vez entre nós, é preciso acabar com esse negócio de demarcação de território, a vida que tínhamos antes era bem melhor, todos viviam em paz e de barriga cheia.

__ Mãe, e o que eu vou ganhar com isso? Quem tem problemas agora são eles, não eu!

__ Justamente! Agora são eles que têm problemas, por isso são obrigados a entrarem em um acordo e o acordo melhor agora, é pela paz de todos.

__ Mãe, a senhora não entendeu! O Azulão e sua turma estão vindos pegar o meu bebedouro, a força.

Mal Tico termina a frase, chega Azulão acompanhado com toda sua turma e vai logo ordenando:

__ Sai logo daí, pigmeu voador! Agora, esse bebedouro é nosso!  Nisso, a turma de Tico vem se juntar a ele e diz:

__ Só por cima do nosso cadáver!

Azulão parte com ódio para cima deles. Nesse momento, dona Beija se põe na frente, impedindo a briga.

__ Basta de tanta violência! Chega de tanta confusão! Azulão, só tem um jeito de você tomar da nossa água, é voltar às coisas do jeito que eram antes. Tem bebedouros para todos, não precisa dessa guerra, como estás vendo somos a maioria, portanto, ou aceitam o acordo de acabar com essa divisão de bebedouros, ou vão embora daqui.

Azulão não tinha muita escolha, chamou sua turma e se reuniram em um canto discutindo a questão, voltando em seguida de cabeça baixa dizendo concordar com a dona Beija. Pediu desculpas pra Tico e esse concordou que eles podiam tomar da sua água, desde que ele também pudesse desfrutar dos outros bebedouros e assim um novo acordo foi selado, trazendo de volta a harmonia no mundo das pequenas aves.

Desse dia em diante, a paz voltou outra vez entre os beija-flores e Azulão nunca mais falou em divisão de território.



             Dilma Lourenço Moreira


2 comentários:

  1. Essa história retrada muito do que se passa também na vida real.Tem muita gente que também é assim

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  2. Muito bom seu blog ja estou seguindo. abraços
    http://blogandodemadrugada.blogspot.com/

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