sábado, 4 de maio de 2013

A promessa



                    


Dona Ondila era uma mulher muito religiosa, vivia interpelando os santos com seus pedidos. Pedia por seus filhos, por seu marido, familiares e amigos. A vida dela era na igreja de joelhos em frente do altar, hora na frente de um santo, hora na frente de outro.
__ Hó! Minha nossa senhora Aparecida, salve o meu filho, ele está com uma infecção no ouvido que não há remédio que cure! Se o meu Givanildo ficar curado dessa doença prometo acender um maço de velas em agradecimento a santíssimas e também olhar pelo meu sogro que está com pneumonia. Faz ele ficar curado minha santa, que peço ao padre Manuel rezar uma missa em intenção das almas!
Passam-se mais alguns dias e lá está dona Ondila nos pés de Santo Expedito.
__ Meu querido Santo Expedito! O senhor que é o santo das causas urgentes faz o Zé parar de beber! A maldita cachaça está acabando com a saúde dele. Se o senhor me conceder esse milagre prometo doar uma cesta básica aos pobres!
E assim a vida ia passando, com dona Ondila fazendo suas promessas, sendo ela uma mulher que vivia dentro dos preceitos de Deus, digna, honrada, os santos cuidavam para que os seus pedidos fossem sempre atendidos, porém tinha um probleminha, dona Ondila tinha um pequeno defeito, esquecia sempre de pagar as suas promessas, até que chegou o dia que a boa senhora desencarnou. E ainda assim, em seu último suspiro rogou aos céus.
__ Hó, meu Jesus Cristo, me acode! Não deixe que o meu espírito se perca nas trevas! Meu santinho amado me põe sentada ao lado direito do seu trono, não me deixe cair em perdição. Se o senhor me conceder essa graça prometo ser uma boa alma por toda eternidade!
Logo, dona Ondila está batendo na porta de São Pedro.
Toque, Toque, Toque!
São Pedro surge sobre uma luz forte, ofuscando os olhos de dona Ondila.
__ O que quer aqui, minha filha?
A carola, trêmula, sentindo-se menor que uma formiga diante da grandiosidade do espírito de luz, com voz rouca, responde:
__ Eu morri São Pedro! Posso entrar?
__ Não, não, aqui não Ondila!
__ Mas porque meu santo, sempre fui uma mulher religiosa, de caráter correto, boa mãe, boa filha, o que eu fiz de tão ruim para não merecer entrar no céu?
__ Quase nada, apenas esqueceu-se de pagar as promessas feitas a todos os santos do céu que intercederam a seu favor diante de Deus, todas as vezes que a senhora rogou ajuda.
Dona Ondila, vermelha de envergonhada, muito sem graça via passar em sua memória diante dos seus olhos como se fossem um filme, todas as promessas feitas e não pagas ao longo de sua vida.
__ E agora meu santo, o que faço para reparar o meu erro? Se o senhor me ajudar São Pedro, eu prometo...
__ Ondila, pode parar! Chega de tantas promessas! Diz São Pedro sem paciência, com o seu vozeirão. A sua conta já está bem alta com os meus colegas!
__ Então, o que faço meu santinho para entrar no céu? Pergunta dona Ondila, de joelho.
São Pedro depois de pensar um pouco, penalizado diante da senhora chorosa, diz:
__ Vou lhe conceder uma nova chance, volte lá pra terra, com o tempo de quitar as suas dívidas, e tem mais Ondila, não faça promessas que não possa cumprir. Se você foi abençoada com alguns milagres é porque teve o merecimento.
__ E por que então eu estou sendo castigada?
__ Por tentar fazer barganha com os santos, eles não te pediram nada, mesmo porque só intercedemos diante de Deus por uma pessoa, se ela for merecedora de receber a graça e se o que pede vai lhe favorecer em sua evolução espiritual, no entanto, você empenhou a sua palavra e palavra dada não se volta atrás, agora é justo que pague o prometido.
Dona Ondila, mesmo percebendo a irritação de São Pedro, acanhada arrisca uma pergunta:
__ Meu santinho, depois que eu quitar as minhas promessas o senhor me deixa entrar ai no céu?
__ Vamos ver Ondila, vamos ver!
E assim, o espírito de dona Ondila volta ao corpo físico.
E outra vez vamos encontrá-la ajoelhada aos pés de um dos santos, mas dessa vez não prometia nada, apenas agradecia por ter voltado do coma profundo após ter sofrido um aneurisma cerebral, no entanto, lá no fundo de sua consciência tinha uma leve sensação de ter levado um puxãozinho de orelha.  
                                  
                                                    Dilma Lourenço Moreira 

Um comentário:

  1. kkkkkkk
    Muito boa história !
    Verdade também . Acho que no fundo promessas é falsidade com Deus .

    abs
    Francisco

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