sábado, 13 de abril de 2013

O peixinho dourado



O sol mal tinha nascido, quando a campainha da porta de dona Ana toca insistentemente. Era a filha Júlia.
__ O que aconteceu minha filha, pra você estar de pé a esta hora?
__ O peixinho dourado do Bruno morreu mamãe, eu preciso comprar outro igual para por no lugar, antes que ele acorde!
__ Minha filha, será que você está fazendo o certo?
__ O Bruno tem verdadeira paixão por esse peixinho mamãe, não quero que o meu filho sofra!
__ Mas filha, a perda também faz parte do crescimento!
__ Não com meu filho mamãe, enquanto eu puder evitar vou poupá-lo dessa dor.
__ Filha, o meu neto é um pré-adolescente e desde os três anos de idade você vem trocando o peixinho dourado morto por um vivo, você diz que está evitando que o teu filho sofra, pois em minha opinião eu acho que você está o inebriando, enganando o garoto, escondendo a verdade dele e quando eu e o avô dele morrer o que você vai fazer? Arranjar outros velhinhos para por no nosso lugar?
__ Mamãe!!! Isso é coisa que se diga?
__ Júlia, a morte faz parte da vida, essa é a nossa realidade, você não vai poder manter o Bruno nessa redoma de vidro a vida inteira! Assim como existe a vida, existe a morte e você está negando esse conhecimento ao seu filho, mais tarde quando ele tiver mais entendimento vai descobrir que nenhum peixe de aquário vive tanto tempo e consequentemente vai descobrir que você mentiu para ele todo esse tempo quebrando a confiança que existe entre vocês.
__ Nossa mamãe, a senhora fala de um jeito como se eu estivesse fazendo muito mal para o meu filho!
__ Filha, muitas vezes privar um ser do sofrimento periga podá-lo para o crescimento pessoal e até mesmo espiritual. Ninguém nesta vida está livre de padecimentos, a notícia de mortes de animais de estimações e entes queridos é dolorida, mas é preciso que aprendamos a lidar também com esse tipo de sentimentos, não negue essa verdade para o seu filho, caso contrário corre o risco dele mais tarde quando se deparar com tal fadonha notícia, não ser forte o suficiente para lidar com esse tipo de sentimentos, vir a cair em derrocada despencando no abismo das emoções. O homem fraco então tem tendência para se veredar pelos caminhos tortuosos dos vícios se perdendo de vez em buracos negros da ignorância, o homem tem que estar preparado para tudo, tanto para vida, quanto para a morte!
__ Então a senhora acha que devo dar a notícia ao Bruno que o seu peixinho dourado morreu, mamãe?
__ Júlia querida, eu repito! Morte e vida faz parte da nossa realidade, fingir que não existe a morte é viver em um mundo ilusório, achando que todos e tudo a nossa volta é imortal. É o mesmo que dizer ao seu filho que no mundo só existe o bem! Criamos os nossos filhos para o mundo, é melhor ele chorar agora do que você chorar mais tarde por ter criado um ser sem sentimentos, achando que vive em um mundo sem dores. Se continuar escondendo a verdade do seu filho com certeza ele será um incapacitado para a vida! Criamos os filhos sem manual, com o risco de erros e acertos, mas com uma única certeza, de que a felicidade deles é as nossas também, cientes que para encontrar esse caminho muitas vezes temos que usar dois pesos e duas medidas, desde que tenha como finalidade a educação e o respeito ao próximo. Portanto Júlia querida respeite os sentimentos do teu filho também, para que ele possa crescer um homem forte preparado para enfrentar os temores dessa longa jornada chamada de vida e melhor saber se sair vitorioso nos obstáculos, que com certeza encontrará ao longo de sua caminhada, para isso é preciso que o meu neto aprenda desde já que a vida não é só feita de beijinhos de papai e mamãe! E se acha que eu estou sendo rude filha, olhe para você, uma mulher forte, inteligente, independente, que não foi criada para ser um bibelô e sim um ser humano sem medo de enfrentar os seus sentimentos, dessa vida não se leva nada, mas se ganha muito quando se aprende a lidar com a realidade!


                           Dilma Lourenço Moreira  

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