sábado, 6 de abril de 2013

Sempre é hora de recomeçar


O senhor Agenor é um pescador, e dos bons, porém, ultimamente como eles dizem, o mar não está para peixe, cada vez volta do mar com menos carga em sua rede, mas a família não parava de crescer, era muitas bocas que o pescador tinha para alimentar, sem contar que o casebre onde morava com a família a beira mar estava precisando de reparos, a esposa dona Silvia vivia a reclamar:
__ Desse jeito não dá pra viver, homem! As crianças choram de fome, quando bate o vento e a chuva, só falta derrubar a choupana, até quando vamos viver nesse perrengue?
__ Tenha paciência mulher! Amanhã volto pro mar, quem sabe dou sorte e volto com o barco abarrotado de peixes.
__ Para de sonhar homem, o mar está poluído, os peixes estão sumindo, não tem mais condições de vivermos nessa beira de mar.
__ E vamos fazer o quê? Vamos pra onde mulher?
__ Homem, alguma atitude temos que tomar, as crianças estão pele e osso. Isso aqui é muito romântico, mas ninguém vive só de peixes e uma cabana, tem momentos em nossas vidas que precisamos ser mais práticos!
__ Você só sabe reclamar mulher, meus avós nasceram e cresceram nessa orla, somos a quarta geração de caiçara que vivem do sustento do mar e que eu saiba, até hoje ninguém morreu de fome!
__ Pois eu vou te dizer uma coisa Agenor, ou você toma uma atitude ou eu sumo com as crianças e você nunca mais vai nos ver!
__ Não fala bobagem mulher! Para onde você vai carregando cinco crianças?
A mulher enfurecida diz determinada:
__ Você está avisado!
Agenor, entristecido deitou na cama e adormeceu. No dia seguinte levantou antes do sol nascer, pegou o barco e entrou no mar em busca do alimento para a família, não demorou muito quando se viu envolvido por uma grande tempestade. O pescador até tentou voltar pra casa, mais o vento estava muito forte e o homem foi carregado a deriva em seu barquinho mar adentro sem conseguir vencer a correnteza, o pescador foi parar em um lugar bem longe do seu vilarejo, quando enfim a tempestade se acalmou o homem se viu diante de uma ilha, agora o sol brilhava mostrando a beleza a sua volta.
Agenor atracou. Encantado, mal acreditava no que seus olhos viam.
__ Meu Deus, que lugar é esse? Será que morri e estou no paraíso?
Nessa ilha tinha diversos pés de bananas e outros tipos de frutos da região, os peixes pulavam no mar fazendo os olhos do caiçara brilharem, com o coração cheio de esperança esse se animou e começou logo a construir uma casinha,  sorrindo, pensava contemplando a beleza do lugar. Ali terminaria de criar seus filhos, a mulher não tinha mais do que reclamar, peixes a vontade, comida não era mais problemas naquela ilha, tinha tudo que um ser humano precisava para ser feliz. Decidido, assim que terminou a construção da choupana pegou o caminho de casa pra buscar a família.
No entanto, uma grande tragédia o esperava, quando esse atracou na praia correu para casa explodindo de felicidade, louco pra contar a novidade, quando se depara com o vilarejo abandonado, esse estava todo revolto, olha a sua volta com o coração querendo sair pela boca tentando entender o que tinha se sucedido na sua ausência, no lugar do seu barraco só encontrou destroços, os outros casebres vizinhos também tinham desaparecidos. Desesperado, com a mão na cabeça com o olhar perdido ao longo do mar, cai de joelho sobre os destroços imaginando o pior.
__ Meu Deus do céu, o que ouve por aqui? Onde está todo mundo?
Solitário, andou quilômetros de distância sobre a areia do mar sem conseguir encontrar uma única pessoa, até que encontrou o dono da mercearia da vila, sentado triste em uma pedra.
__ Senhor Manolo! O que aconteceu por aqui? Onde está a minha família? O que ouve com o vilarejo?
O homem do armazém olhou para o pescador como se tivesse vendo um fantasma.
__ Você está vivo homem?
__ Claro, cadê o resto do povo?
__ Então você não soube?
__ Eu acabei de sair do mar, peguei uma tempestade terrível, foi um milagre ter sobrevivido aquele dilúvio.
__ Você chama aquilo de tempestade? Foi um tsunami! Devastou a vila dos pescadores, não restou nada, as poucas pessoas que sobreviveram a tragédia foram levados para os hospitais da cidade, escolas e creches, até o meu estabelecimento foi jogado pelos ares pelas ondas gigantes, foi um verdadeiro caos, poucos sobreviveram, pensei que também ia morrer!  Terminou o bruta homem desabando em prantos.
Apreensivo Agenor pergunta:
__ E a minha mulher, meus filhos, senhor Manolo, também morreram? Angustiado Agenor espera a resposta, porém o homem não responde nada, apático olhava os destroços a sua volta alheio ao mundo real.
__ Força homem! Olhe pelo lado bom, ao menos estás vivo. Venha comigo, vou levá-lo para um lugar seguro, o senhor precisa de cuidados.
Os dois caminharam por algum tempo, até que se viram de frente do portão de um mosteiro, Agenor bateu e pediu abrigo aos padres jesuítas, apesar de assustados com a visita tarde da noite, acolheram com carinho os recéns chegados, um dos padres a pedido de Agenor passou a narrar os pormenores sobre o ocorrido que tinha feito desaparecer a vila dos pescadores. O padre, emocionado contava deixando transparecendo o horror em seus olhos. Foi uma devastidão meu filho! Em questão de minutos o vento e as ondas gigantes invadiu a orla da praia destruindo tudo que ia encontrando em sua frente, jogando choupanas e moradores a quilômetros de distância, foi uma matança, uma tragédia difícil de esquecer! O pescador, desolado sentindo o pesar na alma, de cabeça baixa chorava lamentando a catástrofe, tendo ao seu lado o dono da venda ainda catatônico com o choque sofrido.
__ Padre, o senhor que conhece a minha família, tem notícias deles?
Esse, com pesar diante do semblante triste do pescador balança a cabeça negativamente.
__ Meu filho, o terror foi grande! Por aqui passou vários corpos boiando em meio a enxurrada, você precisa ser forte! Acho muito difícil que a sua família tenha sobrevivido, mas como pra Deus nada é impossível, sugiro fazer uma busca nos hospitais da cidade.
__ É o que eu vou fazer agora mesmo! E quanto ao senhor Manolo?
__ Não se preocupe meu filho, vá procurar a sua família, pode deixar que cuidaremos desse senhor!
 E assim Agenor partiu em busca da família, correu hospitais, necrotérios, escolas, creches durantes meses e meses sem obter nenhuma notícia. Desanimado, sem esperança resolve voltar para a ilha, lá se isolou amargurado, anos se passaram, até que um dia Agenor saudoso resolve voltar ao antigo vilarejo. A vila estava refeita e outros caiçaras se agrupavam em volta da orla do mar, porém o velho coração do pescador não resiste a emoção, sentindo fortes dores no peito cai desfalecido sobre a areia morna da praia, socorrido por moradores é levado as pressas ao hospital mais próximo, depois de medicado e examinado os médicos resolvem interná-lo para um diagnóstico melhor, quando em uma noite deitado em seu leito de hospital recebe uma visita de uma senhora distinta, de cabelos grisalhos.
__ Quem é a senhora?
__ Não me reconheces mais Agenor? Sou eu, Silvia, tua esposa!
__ Silvia? Pergunta o homem olhando com atenção a recém-chegada.
__ Sou eu mesmo homem! Saíste para pescar no dia que a onda gigante devastou o nosso vilarejo matando a maioria dos moradores, eu e as crianças fomos salvos e abrigados por um tempo em um grupo escolar na capital, onde refizemos nossas vidas, você foi dado como morto pela marinha, mas esse canto de mar nunca me saiu da memória, lá no fundo algo me dizia que você ainda vivia. Semana passada recebi um telefonema do senhor Manolo o vendeiro dizendo que você tinha aparecido na praia e depois levado para o hospital. Onde esteve todos esses anos homem? Me doeu muito quando você foi dado como morto, teus filhos até hoje choram a tua morte!
Agenor com os olhos cheios de lágrimas, emocionado diz segurando na mão da senhora:
__ Silvia meu bem, não teve um segundo em todos esses muitos anos que não pensei em você e nas crianças, era muito dolorido pensar que vocês estavam mortos. Naquele dia que sai pro mar quase morri na tempestade, o vento forte me arrastou para uma ilha carregada de frutos diversos, peixes e minas de água doce, eu estava vivendo um sonho, vi ali a solução dos nossos problemas, reconhecendo que aquele lugar seria ótimo para criar a minha família, assim que me recuperei construí uma boa casinha e fiz o caminho de volta pra buscar vocês, quando atraquei o barco na praia, estava deserta, tudo ao redor destruído, você não imagina o quanto sofri, foi o próprio vendeiro o senhor Manolo que me pôs a par do caos que tinha destruído a nossa vila. Fiquei enlouquecido, procurei vocês por anos, até que então cansado e desiludido resolvi voltar pra ilha e lá também terminar os meus dias, foram anos de solidão vivendo apenas com as minhas lembranças, a saudade batia tão forte em meu peito que um dia criei coragem e vim parar nesse quebra mar, vi passar diante dos meus olhos a dor daquele dia fatigo, logo senti uma forte dor no peito me fazendo contorcer sobre a areia do mar, rostos giravam a minha volta, me vi rolar por escombro de um vulcão sem forças para lutar me deixei levar no redemoinho da dor, mas agora que você está aqui vejo luz outra vez em minha vida! E as nossas crianças, você disse que estão todos salvos, por que não estão aqui com você?
__ Agenor, se passou muitos anos, faz tempo que nossos filhos não são mais crianças, os mais velhos já são pais e além do mais os filhos quando crescem não nos pertence. Hoje vivo em uma casa de repouso, terminei de criar os nossos filhos e até ajudei a criar os netos, mas tem uma hora que a vida cansa, a carga de sofrimento pesa e ficou pior quando dois dos nossos filhos, os mais novos, recentemente morreram em um acidente de automóvel, não aguentei o baque e fui internada em uma clínica, com crise nervosa, onde moro até hoje, desde então luto contra depressão profunda.
O pescador ouvia a narrativa emocionada da esposa, tinha ele as mãos entrelaçadas com as dela, com carinho a abraça com o intuito de passar forças a sua congênita, os dois, comovidos permaneceram abraçados por um tempo chorando a perda de seus filhos caçulas.
 Nos olhos daquela senhora de cabelos grisalhos, Agenor via a jovem sorridente que um dia ele se apaixonou. Silvia se vendo analisada desvia o seu olhar do dele, acanhada sente o rosto rubro de vergonha, cobrindo-os com as mãos.
__ O que foi, por que está me olhando desse jeito? Eu estou velha, não é?
__ Ao contrário, estou aqui te admirando, você está linda! O tempo só te favoreceu!
Silvia sorri com a gentileza de Agenor descontraindo o clima entre os dois, de repente, era como se o tempo não tivesse passado e o amor da juventude estivesse presente unindo eles outra vez, de uma forma mais segura, mais experiente.
 Agenor teve alta no hospital. Orgulhoso, saíram de braços dados com Silvia, os dois foram direto para o cais, entraram no barquinho e saíram alto mar em rumo a ilha paradisíaca onde os dois recomeçariam uma nova vida!


                                      Dilma Lourenço Moreira

Um comentário:

  1. Uma história tocante. Os caminhos, os rumos que tomamos nesta VIDA são sempre muito misterioso...
    Abraços

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