sábado, 9 de março de 2013

O garoto da mina



Maurício mora no alto da colina, em um casebre muito pobre. Seu pai, o senhor Joaquim é mineiro. Um dia ele levou o filho para a mina e em um descuido o garoto caiu de uma ribanceira, depois desse tombo Maurício nunca mais andou.
Hoje, ele passa o dia na janela sentado na cadeira de rodas olhando o vai e vem dos mineiros, mas o que lhe encanta mesmo são os voos dos pássaros, o vento brincando em seus cabelos negros encaracolados lhe dando a sensação de liberdade. Dona Antonia a mãe, fica entristecida olhando o filho na cadeira de rodas, com os olhos compridos olhando além da janela, o pior que nada ela pode fazer para tirá-lo daquela situação. O que ainda faz o menino sorrir é brincar de carrinho nos trilhos da mina, apesar do acidente que sofreu não ficou com medo de voltar na gruta, ao contrário, esse é o seu lazer preferido.
Maurício grita de emoção com o carrinho em alta velocidade chegando a soltar fogo dos trilhos, seus olhos brilham sentindo a adrenalina ferver, o sangue queimar a pele fazendo o coração bater forte dentro do peito, porém tinha momentos em sua vida que o garoto se sentia triste, solitário, principalmente na escola na hora do recreio enquanto todas as crianças corriam para o pátio para brincarem de pega-pega, pique esconde, futebol. Ele se refugiava na biblioteca e assim ganhava o mundo através da leitura, viajava deixando a imaginação fluir, voando sobre as minas negras feito carvão alcançando o azul do céu, velejando sobre nuvens, cavalgando em arco-íris em busca da felicidade, até que alguém o chama para a realidade e o menino sorria tristemente reconhecendo sua vidinha sem graça de sempre. Se não fosse os momentos que passava brincando nos carrinhos da mina sua infância seria sem cor e sem luz, a emoção que sentia era intensa, quando estava no comando do carrinho se sentia senhor de si, por dentro a adrenalina pipocava em todos os poros do seu corpo aflorando sobre o seu ser, só assim o garoto se sentia vivo outra vez.
Outro dia, quando Maurício estava correndo, se divertindo nos trilhos da mina, quando ouviu uma gargalhada infantil, de princípio teve medo, pois os mineiros costumavam dizer que a mina era mal assombrada e o susto foi maior quando ele olha para trás e vê outro menino sentado no banco de trás do carrinho, feliz esse também se divertia com o vento brincando em seus cabelos.
__ Quem é você? Não vi você subir!
__ Ola Maurício! Que bom que agora você está me vendo, sou o teu parceiro, há muito tempo brinco com você nessas minas.
Mal o garoto se recupera do susto quando se vê em um lugar reluzente, florido, assustado, olha a sua volta.
__ Que lugar é este? Onde estamos?
__ Esse é o seu mundo imaginário!
__ Se é imaginário, não existe!
__ Existe se você acreditar! A propósito, me chamo Sócrates! E hoje é um dia para se comemorar, não são todos os dias que conseguimos entrar no mundo real imaginário.
__ Aqui é o paraíso? Pergunta Maurício encantado com tudo a sua volta.
__ Se você o vê assim, é! O paraíso somos nós que fazemos, vem comigo! Tem mais alguém aqui que você precisa conhecer. Diz Sócrates correndo na frente.
__ Hei, espere por mim! Esqueceu que eu não consigo andar?
 Sócrates se volta sorrindo, dizendo:
__ Aqui no mundo da imaginação você pode!
__ Poxa é mesmo, eu estou de pé, que maravilha!
Maurício sai correndo sentindo a relva macia debaixo de seus pés, extasiante de felicidades, fazendo piruetas, plantando bananeiras, enquanto Sócrates sorria diante da felicidade do amigo.
__ Sócrates, é aqui que você mora?
__ Moro dentro de sua imaginação, meu mundo é você quem faz!
__ Então quer dizer que você também não é real?
__ Maurício, eu repito! Tudo aqui é real se assim você acreditar!
De repente o garoto da mina para de sorrir quando seus olhos esbarram com algumas crianças em cadeiras em rodas.
Com voz triste e decepcionado Maurício pergunta para o amigo:
__ Por que essas crianças estão em cadeiras de rodas, se você diz que esse mundo foi criado por minha imaginação?
__ Não amigo! Você não as criou assim, porém elas se sentem presas como se estivessem em uma cadeira de rodas.
__ Não entendi Sócrates!
__ No mundo real dessas crianças elas não são paralíticas, mas é como se fosse, são crianças com mentes de adultos, cresceram antes do tempo, nem sequer tiveram infância, nem muito menos imaginação, essas crianças têm mentes e corpos atrofiados.
__ E vão serem assim para sempre?
__ Isso depende delas, é preciso apenas que deseje despertar, são chamadas as crianças sem imaginação, falar em imaginação, já está na hora de voltar para o mundo, de fato real.
__ Há, logo agora que estava ficando bom?
__ Calma Maurício, sempre que você quiser pode voltar com a imaginação fértil que você tem, não vai ser uma cadeira de rodas que vai te podar.
__ É uma pena que as minhas pernas só funcionam aqui no mundo do faz de conta.
Sócrates olha bem nos olhos do amigo e diz com voz firme:
__ Maurício, querer é acreditar! Tem coisa pior que ser paralítico, é não saber sonhar! Se você tem a mente plena de imaginação, você pode andar e até mesmo voar!
O garoto da mina desperta com esse pensamento fixo ressonando em mente, que se acreditasse podia andar e até voar.
Lá na boca da gruta o garoto ouve a mãe chamar, esse se põe de pé e se vê firme em cima das próprias pernas, perplexo de felicidade corre ao encontro da mãe, seu corpo estava tão leve que parecia realmente voar.
A mãe abraça o filho, gritando:
__ É milagre! É milagre! O meu filho está andando.
Em volta do garoto se formou um burburinho, todos querendo saber o que tinha acontecido.
Maurício eufórico de contentamento, explica:
__ O milagre só acontece se você acreditar e quando se deseja muito o seu querer toma força, fazendo o milagre acontecer!



                             Dilma Lourenço Moreira

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