quinta-feira, 7 de julho de 2011

O retirante da seca





Celestino é um homem muito trabalhador, levanta-se antes das cinco horas da manhã, prepara sua marmita e seis horas já está na rua, em sua bicicleta a caminho da construção civil.

Ele é um pedreiro de mão cheia, como se diz lá no nordeste de Pernambuco, é sempre o primeiro a chegar e o último a sair da construção, com ele não tem tempo ruim, o patrão confia cegamente em seu trabalho, faça chuva ou faça sol Celestino não é homem de fugir das responsabilidades, já ajudou a construir muitos prédios, hospitais, bancos, escolas, etc. Não falta um só dia com suas obrigações, essa é a sua rotina já há alguns anos.

Aos domingos, dia de folga, passa ouvindo radinho de pilha, sua única diversão. Lava as poucas roupas que possui, rapidamente e vai escrever cartas para a esposa, que deixou em Pernambuco, com cinco filhos. A seca lá estava brava, até os gados estavam morrendo, que dirá o povo, que mal se agüentavam de fome e de sede. Muitas noites, Celestino e a esposa dona Manuela passavam em claro procurando uma solução que os salvasse da seca, não tem nada pior para um pai de família, do que ver as panelas vazias, seus filhos chorando com fome, sem poder oferecer um pedaço de pão.

Em uma dessas madrugas, sentindo o estômago doer de fome, Celestino comunicou a dona Manuela, sua esposa, que iria para o sul em busca de trabalho. Do roçado nada crescia, as poucas criações que possuíam, também já tinham se ido e antes que a morte batesse em sua porta, Celestino partiu em busca de solução.  
Beijou as crianças, a esposa com o rosto banhado em lágrimas, prometendo a dona Manuela que assim que chegasse em São Paulo mandaria notícias. Colocou a trouxinha nas costas e mal o dia tinha nascido e o pai de família já estava na estrada tentando pegar carona para o sul. Nisso, levou duas semanas dormindo em marquise de lojas, bancos de praças e quando enfim chegou a São Paulo, de madrugada, graças às generosidades dos caminhoneiros que o deixou na rodoviária onde pernoitou, deu uns cochilos e quando o dia amanheceu saiu em busca de emprego, onde também pudesse dormir, por sorte arranjou naquele mesmo dia um emprego na construção civil, que dava alojamentos. No fim do dia escreveu para a mulher, contando que tinha chegado bem e já estava trabalhando, o patrão quando ficou ciente de sua situação adiantou um vale, o que lhe deixou ainda mais animado, pois de fome os seus filhos não iam morrer e assim o tempo foi passando. Todo dinheiro que pegava mandava pra casa, durante o dia, enquanto passava na lida era tranqüilo, porém as noites eram frias e solitárias, em seu peito amargava a saudade de sua amada Manuela e de seus cincos filhinhos que deixou lá no nordeste, às vezes a solidão batia forte e avalanches de lágrimas banhavam o travesseiro, mas tinha fé que um dia ainda iria voltar pra sua terrinha e pra sua família.

A esposa dona Manuela, que ficou lá no nordeste, também se sente solidaria, chora todos os dias sentindo saudades do marido, não tanto quanto o Celestino, porque ela, pelo menos tem a companhia das crianças. Quando alguém lhe perguntava como ela suportava viver longe do Celestino, ela lhe respondia que estavam separados apenas de corpo, porque em pensamento e coração, estavam juntos. O amor os unia, apesar da distância e assim iam vivendo, e o tempo foi passando e nada de Celestino poder voltar para o nordeste, pois todo o salário que ganhava mandava para esposa, que gastava no sustento das crianças, pois agora estavam na escola e a despesa só fazia aumentar. Os cabelos de Celestino foram ficando grisalhos e apesar de tanto que trabalhava, o dinheiro não rendia, os filhos foram crescendo e cada um se debandando para um canto, também em busca de uma vida melhor.

Celestino, com a idade avançada, adoeceu. Não aquentava mais trabalhar, o pouco que conseguia mal dava para se sustentar. Triste, envergonhado, perdeu o ânimo de viver, não escrevia mais para a família, pois já não tinha mais o que oferecer.

Deitado em seu casebre, magro e velho Celestino se deixou ficar esperando, só mesmo a morte chegar. Até que um dia ouviu alguém batendo palmas no portão. Mal tinha forças para se levantar e ver quem estava chamando, quando ouve uma voz familiar vindo de lá de fora.

__ Hô de casa!!! Hô de casa!!!

Celestino reconhece aquela voz, de pronto, e com o coração acelerado abre a porta do humilde casebre. Era ela mesma, Manuela. Sentiu como se o sol tivesse invadido sua alma.

__ É você mesmo, Manuela?

__ Sou eu, homem! Em carne e osso, vim te buscar!

Celestino, surpreso chegou mais perto, mal acreditava no que via, precisou tocar em sua pele, acariciou seus cabelos e só assim, emocionado pegou a esposa em seus braços.

__ O que está fazendo aqui, mulher?

__ Meu velho! As crianças cresceram e hoje cada um cuida de suas vidas. Você parou de escrever, não agüentei a solidão e vim te buscar.

__ E fazer o que lá, mulher, se a seca continua matando. Eu vi ontem no noticiário da tevê, e ainda mais agora que estou doente e não posso trabalhar.

Celestino se senta, envergonhado na tosca cama, segura as mão da esposa e continua a falar desanimado:

__ Me perdoe! Eu fui um fracasso! Vim aqui pra essa terra em busca de uma vida melhor, trabalhei a minha vida inteira e nada tenho.

__ Você trabalhou a vida inteira para criar os nossos filhos, se sacrificou para que eles estudassem e tivessem uma profissão, hoje eles são homens responsáveis e pais de família, você acha isso pouco? E além do mais agora temos a nossa própria terrinha, não precisamos trabalhar pra mais ninguém, com o dinheiro que você mandava para alimentar e educar os nossos filhos dava e até sobrava e com essas sobras fui juntando e comprando em terras e animais, a lavoura desse ano não foi boa, mas é mais que o suficiente pra sustentar nós dois.

__ Não sei não, às vezes fico pensando que poderia ter sido diferente. Será que foi certo o que eu fiz? Será que não me precipitei? Não tive o direito nem de ver os nossos filhos crescerem, o que será que eles pensam de mim?

__ Meu querido, se você não tivesse vindo naquela época pra São Paulo teríamos todos morridos a míngua, você fez o que qualquer pai de família faria se tivesse em seu lugar. Na verdade, você salvou as nossas vidas, pra mim e pros nossos filhos você é um herói. De hoje em diante, vida nova. Vamos aproveitar esse nosso resto de vida, pra ficar mais tempo ao lado dos nossos filhos e netos que estão chegando. A vida nos separou por muitos anos, não vamos desperdiçar esse tempo que temos agora, que a meu ver é um bônus de Deus, com amarguras se lamentando o tempo que se foi. Esse passou por nós como o vento e não tem como retroceder, o importante que vencemos, pois ainda estamos aqui vivos. Superamos fomes, dores, saudades e muita solidão.   Agora, restamos só nós dois, igual quando começamos, lembra? Os dois ficaram se olhando por um tempo, em seguida soltaram uma gostosa gargalhada.

Manuela segurou a mão de Celestino com carinho, dizendo:

__ Venha, meu velho! Vamos voltar para nossa terra, nossos filhos e netos nos aguardam ansiosos.

Quando Celestino chegou a sua terrinha, depois de muitos anos sonhando com o retorno ao lar, seus olhos encheram de lágrimas. A casinha pintada de branco, a lavoura e a horta verdinha, a brisa correndo sem freios sobre as plantações, os animais pastando tranquilamente, abarcando um punhado de terra nas mãos, ainda incrédulo, como se quisesse constatar que realmente o que estava vivendo era real. Manuela abraçou o marido, também emocionada.

__ Veja, meu velho! O que o seu trabalho nos proporcionou, sua ida pra São Paulo não foi em vão, além de ter criado os nossos filhos, dessas terras vamos tirar o nosso alimento, é o que vai nos manter em nossa velhice.

Logo, a porta do casebre se abre e um bando de gente sorridente vem os receber.

Manuela diz orgulhosa.

__ Essa é a nossa família, meu velho! Filhos, noras e netos, eu avisei da tua chegada e eles vieram te felicitar.

Celestino não sabia se ria ou chorava. Quando saiu de casa, deixou todos ainda pequenos, abriu os braços e acolheu todos os filhos em um só abraço, a emoção foi geral.

Manuela chega afastando a tristeza.

__ Chega de tanta choradeira, minha gente, hoje é dia de comemoração, o pai de vocês está de volta ao lar, de hoje em diante, aqui nesta casa só vamos ter felicidades.

Celestino sentou em sua velha cadeira de balanço, com os filhos a sua volta.

Um dos filhos pergunta, preocupado.

__ O que foi pai? Não está feliz por ter voltado para casa?

__ Estou mais que feliz, sonhava com esse momento todos os dias. Quero aproveitar para pedir perdão, por não ter acompanhado o crescimento de você de perto, mas como vocês bem sabem, eu não tive alternativa, aqui não tinha emprego e da terra nada se podia tirar, por causa da seca, eu não podia cruzar os braços e ver a minha família passando fome. Espero que vocês me compreendam que eu fui obrigado a tomar essa decisão.

Apesar de Celestino estar se sentindo culpado, por passar tanto tempo longe de sua família, chora de satisfação diante dos filhos crescidos. Esses, um por um vão se chegando, formando um novo abraço coletivo em volta do velho pai. Depois de um tempo, a emoção controlada, um dos filhos diz, abraçando amorosamente Celestino.

__ Pai, o senhor não tem que se sentir culpado, o maior sacrificado foi o senhor, nós só temos a te agradecer por tudo que fez por nós. Viveu todo esse tempo no sul, sozinho, longe da gente, trabalhando para nos sustentar e nos manter estudando, hoje somos formados, temos uma profissão, graças ao senhor. Agora, é a nossa vez de cuidar do senhor.

Dos olhos do pai se via o lampejo de orgulho, em ver os seus filhos crescidos, unidos ao seu redor e feliz por estar de volta ao aconchego do lar.

                                            



Dilma Lourenço Moreira








Um comentário:

  1. Gostei muito da história, temos que acrditar e ter esperança sempre.
    Abraço.

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