domingo, 30 de junho de 2013

O João de Barro


Juquinha ganhou de presente do seu pai um pássaro na gaiola. O olhar triste do garoto diante da ave presa não escondia a sua decepção.
__ Qual a espécie desse pássaro, pai? Perguntou o menino examinando a ave que se mantinha assustado, borocochô em um canto da gaiola, mal conseguia soltar um pio.
__ Não sei filho, um amigo da firma me perguntou se eu queria esse pássaro, ele viaja muito a trabalho, muitas vezes para o exterior, de modo que não tem tempo para cuidar da ave, mas qual a razão da pergunta, você não gostou do presente, Juquinha?
__ Pai, você sabe que eu adoro pássaros, mas gosto mais deles livres, soltos na natureza, o que esse pobre pássaro fez para viver preso em uma gaiola, enquanto outras aves sobrevoam livres e felizes?
O pai olha o filho meio sem graça.
__ Compreendo o que você está querendo dizer filho, mas essa pequena ave está condenada a viver para sempre nessa gaiola. Nasceu em cativeiro e não sobreviveria sem a mão do homem para alimentá-lo.
__ E por que tem que ser assim, pai?
__ Juquinha! Eu sei o que você gostaria de fazer, abrir a porta dessa gaiola e deixar o pássaro sair voando livre, mas se você filho fizer isso é o mesmo que assassinar essa ave!
O menino depois de um tempo pensativo pergunta esperançoso ao pai:
__ Pai, e se esse pássaro aprendesse a sobreviver sozinho?
__ Não inventa moda Juquinha, como você vai fazer isso?
O garoto se aproxima do pai com os olhos brilhantes, lhe entregando todas as economias que havia em seu cofrinho.
__ Eu tive uma ideia! E para isso eu preciso da sua ajuda, quero cobrir o pomar do quintal dos fundos com tela formando um grande viveiro para o meu pássaro e assim ele vai meio que aprendendo a viver na natureza, se é verdade que somos responsáveis por quem a gente cria, quero dar o melhor para esse pássaro, se possível devolver um dia a ele a liberdade.
__ Filho! Cobrir o pomar inteiro com tela por causa de um único pássaro! Estou achando isso um exagero, sem falar que vai custar uma grana.
__ Por favor, pai! É por uma causa justa!
A mãe de Juquinha, Dona Sara, que ouvia a conversa de perto, veio em socorro do filho.
__ Concordo com o Juquinha, quando se adota qualquer tipo de bichinho de estimação somos responsável pela sobrevivência desse, e está na cara que essa ave não é feliz ai preso nessa gaiola, não se cativa a quem se ama, ao contrário, quem ama liberta!
O pai nervoso reclama:
__ Isso vai dar um trabalho danado!
Mas Juquinha teimou, insistia na ideia, então, logo assim que chegou o material encomendado o garoto todo animado acompanhado com o pai e mais alguns familiares cobriram o pomar com a tela, o pomar já tinha pequenas fontes de água, de forma que não foi preciso fazer muito, um dos adultos ainda cogitou a ideia de fazer uma porta para que a ave não fugisse, Juquinha foi contra:
__ Nada de portas, aqui nesse recanto o meu passarinho tem tudo que se encontra na natureza, aqui ele vai aprender a lutar por sua sobrevivência, tem água e comida e espaço o suficiente para que aprenda a voar e quando esse estiver pronto a porta do viveiro vai estar aberta e assim o meu pequeno pássaro vai sair livre voando por campos, bosques, florestas, rasgando o espaço e abraçando a liberdade com suas asas.
Depois do viveiro pronto, feliz o menino retirou o pássaro da gaiola e o deixou solto na palma de sua mão.
A avezinha desajeitada voou por algum tempo meia que insegura sem saber onde estava, exalto pousou em uma das copas da árvore da macieira, o coração da pobre ave batia acelerado, Juquinha não perdia um só movimento do pequeno pássaro que se perdia em meio do gigante viveiro, como esse era aberto outras aves foram se juntando ao pequeno pássaro de Juquinha, ia aparecendo pássaros de todas as espécies, cada um com o canto mais melodioso que o outro, mas o passarinho de Juquinha ainda era a sua preferência, a avezinha feliz, animado, cantava e brincava voando com os outros pássaros dentro do viveiro.
Entre os outros pássaros tinha um que era da mesma espécie que o pássaro de Juquinha, até que um dia o garoto vê passar pela janela do seu quarto o seu pássaro, esse voava feito uma pluma livre rasgando o azul do céu. Juquinha orgulhoso seguiu-o com o olhar até que esse se perdeu de vista, o menino então ficou preocupado, mas não demorou muito, Juquinha com certo alívio vê que o pássaro estava de volta, naquele dia a ave fez várias viagens sempre trazendo no bico gravetos ou bolinha de barros, curioso Juquinha foi verificar o que tanto o pássaro fazia e para surpresa sua ele estava construindo uma casinha, com que trazia no bico.
Dona Sara veio logo atrás, ela também estava estranhando a movimentação do pássaro que há dias estava agitado, ia e vinha fazendo várias viagens carregando algo no bico, o pássaro já tinha saído do viveiro outras vezes, mas ficava por perto sobrevoando em volta da casa, entrava pela janela no quarto de Juquinha, os dois eram inseparáveis, quando Juquinha exclama admirado:
__ Mãe! Vem ver isso, o meu pássaro está construindo uma casinha!
__ Que lindo filho, o seu pássaro é um João de Barro!
__ João de Barro?
__ Sim! O chamado construtor da mata! Juquinha! Olha, dentro da casinha tem outra ave, que gracinha, ele arranjou uma namorada.
Papai também veio ver a novidade e falou bem humorado:
__ Xiii! Pelo jeito alguém aqui vai se casar!
Se antes o viveiro já era um acontecimento por conta da visitação de várias espécies de pássaros, agora com a descoberta que o pássaro de Juquinha na verdade era um João de barro, esse se tornou a atração do viveiro, vinha gente de longe para ver o pássaro construindo a sua casinha.
O tempo passou e a movimentação do viveiro só fazia aumentar.  João de Barro juntamente com sua companheira estavam em uma alegria só, a passariada fazia festa em volta do casalzinho apaixonado, porém Juquinha recebia um tratamento especial da pequena ave, tanto que só era o menino entrar no viveiro e João de Barro vinha logo pousar em seu ombro, bicando a sua orelha, brincando em seus cabelos, ele não tinha esquecido o amigo, apesar de toda agitação em torno dele.
Porém o tempo passou e João de Barro estava mais que preparado para conhecer o mundo, então, em um belo dia o casal de João de Barro chegaram de surpresa no quarto do menino. Juquinha fazia seus deveres escolares quando sentiu o amigo pássaro pousar de mancinho em seus cabelos, esse pulava da cabeça para o ombro chamando a atenção do garoto com um canto triste, enquanto a companheira o esperava no patamar da janela.
__ O que foi amigo? Por que esta agitação?
A avezinha como resposta vai ao encontro da senhora João de Barro ficando lado a lado no patamar da janela e juntos se põem a cantar uma bela melodia, depois o casal saiu voando. Juquinha intrigado os segue com o olhar até que esses se perderam sobre as nuvens.
Os dias se passaram e nada dos pássaros voltarem, o que logo foi concluído pelo garoto em um misto de tristeza e alegria, que finalmente o pássaro João de Barro levantou voou em busca de sua merecida liberdade.


                                        Dilma Lourenço Moreira

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