segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Memória de um cão abandonado




Dido é um cachorro de rua, quando foi abandonado pelos seus donos perambulou por muito tempo triste nas calçadas, tentando entender onde tinha errado.

Adorava seus donos e fazia de tudo para agradá-los, achava que estava tudo bem, mas de repente, certo dia eles desapareceram sem nenhuma explicação. Dido tinha saudades deles, principalmente das crianças, a dor de ser abandonado era tanta que por diversas vezes ele pensou em se jogar embaixo de um caminhão. Dói muito ser deixado para trás, rejeitado por quem se ama. Um belo dia uma bondosa senhora penalizada com seu estado o levou para sua casa, a esperança brotou outra vez no coração do cão abandonado, afinal os homens não eram todos iguais, eu tinha um novo lar outra vez. Viva! Dona Valéria, era assim que ouvia a chamar. Banhou-me, me alimentou e cuidou das minhas feridas causadas pelos pontapés recebidos pelos homens quando me escorraçavam da frente dos seus estabelecimentos.

Para mim, esse foi um tempo difícil, mas creio que para o homem de rua era pior, estavam sempre alcoolizados ou drogados, jogados em meio às calçadas feitos farrapos humanos. Eu, pelo menos me contentava com um pedaço de salsicha que me davam, agora o homem pra sobreviver nas ruas necessitava ficar anestesiado, sinto uma tristeza muito profunda quando lembro desses homens. Eu, hoje estou protegido aqui no lar de dona Valéria, mas esses pobres homens renegados pela vida, se já não morreram continuam a amargarem pelas ruas agonizando sua sina.

Aprendi muito durante esse tempo que dormi nas portas dos açougues, para garantir o sustento do dia seguinte, o que acontece em meio da madrugada enquanto as maiorias dormem, é aterrorizante. Nesse tempo fiz amizade com Maurinho, um quase adolescente viciado em crack. Percorria as ruas da cidade, esmolando, eu, apesar de ser um cão de porte grande não tinha raça definida, o povo nas ruas me ignorava. Sujo, com perebas pelo corpo inteiro, igualzinho ao meu companheiro Maurinho. Eu não saia do seu lado nem por um segundo, com medo que os outros mendigos o atacassem para roubar-lhe as roupas e as poucas moedas que conseguia, por outro lado Maurinho também me protegia dos outros cachorros que queriam roubar minha comida, quando conseguia alguma.

Caminhávamos a madrugada inteira, com frio e fome a procura de um lugar seguro para dormir. Tínhamos medo de sermos assassinados enquanto dormíamos, pelos próprios mendigos e rapazes arruaceiros que saiam a noite se divertindo, fazendo maldade com os já desvalidos da sorte e só ao amanhecer, sentindo o cansaço moendo nossos ossos escolhíamos um lugar movimentado para tirar um cochilo. Quando o efeito das drogas diminuía no organismo de Maurinho ele chorava e eu chorava junto, sentindo o peso do abandono, mas tudo ficou pior para mim quando um dia Maurinho também me abandonou, ele foi levado em um carro branco depois de sofrer uma forte convulsão. Saí correndo atrás do carro, desesperando, queria ir junto também, mas o veículo sumiu velozmente no meio da cidade e eu fiquei mais uma vez sozinho olhando a fumaça do carro sumindo no ar. No fundo estava feliz pelo meu amigo, alguém teve compaixão e veio salvá-lo daquele sofrimento. Perambulei pelas ruas, sem destino, sozinho por alguns dias, até que apareceu uma alma caridosa como dona Valéria. Agora, estou aqui feliz em um lar quentinho, em troca darei a essa generosa senhora a minha lealdade e a protegerei, se preciso for com a minha própria vida.

Às vezes, eu fico triste lembrando-se dos outros homens e animais jogados na vida e fico desejando, que bem que poderiam existir mais pessoas como a dona Valéria e esse anônimo que socorreu o meu amigo Maurinho, nos devolvendo a vida.        



                                      Dilma Lourenço Moreira


Um comentário:

  1. nossa belissimo texto
    gostei muito mesmo
    prbns e muito sucesso pra vc.
    se quiser dar uma olhada no saite da minha mulher.
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