sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O peru de natal





Vavá era um peru muito alegre e feliz, ele morava na fazenda do seu Tito.

Era véspera de natal e seu Tito entrou no cercado das aves para levar um peru para ceia. Dona Gema, sua esposa, recomendou ao seu Tito que levasse o peru maior e mais gordo que tinha no cercado, pois aquele ano iriam receber os parentes da cidade e precisava impressionar o povo. Seu Tito examinou cuidadosamente todos os perus do cercado, até que colocou os olhos em Vavá. Olhou o peru penalizado e sentenciou:

__ É você mesmo rapaz, que vai ter o privilégio de ser o destaque da ceia!

Todos os outros perus respiraram aliviados enquanto Vavá entrava em desespero, sabia que mais cedo ou mais tarde ia parar no forno de dona Gema, mas na hora que se recebe a sentença de morte o medo fala mais alto, nunca ninguém está preparado para a morte, ainda mais se esta vem de um ato tão violento. Vavá começou a correr velozmente dentro do cercado se escondendo entre as outras aves, dando uma baita canseira em seu Tito, este estava com uma cordinha nas mãos e assim que conseguiu por as mãos em Vavá, abraçou o peru amarrando suas pernas. Satisfeito, seu Tito dizia enquanto mobilizava a ave.

__ A Gema vai ficar muito feliz, aqui tem carne para mais de vinte pessoas!

Vavá, o peru, estava em pânico, apesar de ser muito esperto se perguntava como ia sair daquela situação, precisava pensar em um jeito de se livrar daquela ceia, mas como? Tudo estava acontecendo tão rapidamente, que Vavá não tinha tempo para conciliar os seus pensamentos, o medo os tinha congelado e o tempo estava correndo.

Dona Lira, esposa de Vavá, estava inconsolável. Abraçada aos seus filhotes seguia seu Tito implorando que levasse ela no lugar de Vavá, esse tentava acalmar a companheira pedindo que voltasse para a segurança do cercado com seus filhotes.

__ Vai para casa, amor! Vou dar um jeito de me livrar desta!

__ E como você vai fazer isso Vavá, o seu Tito está te levando direto para a cozinha!

__ Eu volto amor, confia em mim, logo estarei em casa!

Dona Lira ficou chorando no meio da estrada, implorava, gritava a todo pulmão pedindo que soltassem o Vavá, que o deixassem viver.

O pobre do Vavá estava de dar pena, com os dois pés amarrados sendo arrastado pelo seu Tito por toda a fazenda a caminho da cozinha. Enquanto isso, Vavá tentava colocar o cérebro para funcionar, precisava se livrar daquele enrosco, porém, por mais que tentasse não conseguia imaginar uma saída para livrá-lo daquela ceia medonha, onde ele seria a refeição mais importante.

Até que chegaram à cozinha, seu Tito largou Vavá de qualquer jeito no canto da pia, onde o cozinheiro o aguardava com um enorme facão na mão e Vavá ainda não tinha pensado em nada que pudesse o livrar da morte, já se sentia nas últimas, cansado e esfolado, ofegante, de bico aberto sem forças para lutar, até que Vavá viu se aproximar o cozinheiro, um homem enorme com um avental cheirando a comida, o homenzarrão abriu o bico de Vavá enchendo o peru de aguardente, Vavá nessa hora reagiu, o líquido queimava-o todo por dentro, um fogaréu enorme explodia em suas entranhas, se soltando das amarras saiu em uma disparada porta afora, feito um rojão correu o mais que pode, passou no cercado das aves pegou sua família e fugiu da fazenda se refugiando na floresta.

Vavá ainda se encontrava atordoado, nem ele acreditava que tinha se safado da morte, aquele aguardente, quando bateu em seu estômago teve o efeito de um estopim jogando-o porta afora, fazendo-o voar pela estrada com uma velocidade de um foguete.

Vavá só parou, quando se viu em segurança entre as copas gigantescas das árvores da floresta, largou a família no chão que na verdade nem sabiam quem os estavam carregando, tamanho era a velocidade do peru fugindo da ceia de natal.

Dona Lira e as crianças estavam impressionadas com o ocorrido. As crianças estavam orgulhosas da astúcia do pai.

__ Papai, como conseguiu fazer isso? Você tem super poderes? Pergunta Maria admirada.

Vavá bem humorado, respondeu:

__ Quem será que nos salvou? Foi o homem aranha, ou o super- homem? Não!!! Foi um peru embriagado! A família toda dá uma gostosa gargalhada, em seguida eles se abraçam dando graças por Vavá não ter feito parte da ceia de natal do seu Tito.

Maria, a filha caçula de Vavá, perguntou com os olhinhos cheios de lágrimas.

__ Papai, por que nós, os perus, somos servidos na ceia que se comemora o aniversário de Jesus cristo?

__ Meu bem, a comilança na noite de natal não tem nada a ver com Jesus Cristo, essa é uma maneira errada de se comemorar o nascimento do menino Jesus. O natal é um dia de confraternização, de amor ao nosso próximo, de reconhecimento por tudo que Jesus nos ensinou, pena que alguns confundem confraternização com fartura em suas mesas, esquecendo que muitas vezes o vizinho, nem pão tem nesse dia para comer, que as ruas estão cheias de crianças abandonadas pedindo esmolas nos semáforos ou vendem balas para sobreviverem, é lamentável, mas infelizmente é fato que até os dias de hoje o homem ainda não aprendeu o significado das palavras, ame ao seu próximo como a sim mesmo. Deus enviou Jesus para ensinar aos homens a amar uns aos outros sem exceções, em uma época que o povo era rude de coração e a ignorância predominava. Esses, não compreenderam a missão do Cristo e o crucificaram, um espírito iluminado que ensinava o amor, o perdão através de parábolas, pequenas histórias para melhor compreensão do povo. Essas histórias continham grandes ensinamentos. Entre muitas lições deixadas pelo mestre Jesus, dizia que todos nós somos irmãos, filhos de um só pai, um Deus único que rege sobre nós e sobre toda as coisas que estão a nossa volta! Finaliza Vavá entristecido. Maria comovida com a explicação do pai diz.

__ Foi uma pena, não é pai, que o povo da Judéia não compreenderam a linguagem de Jesus Cristo e permitiram que um homem que só pregava o amor fosse crucificado na cruz, um ser que só fazia o bem!

O peru Bentinho, o filho do meio, reage bravo!

__ Então pai, o povo além de matar Jesus na cruz, um homem santo, não satisfeito ainda criaram o péssimo hábito de pegar, nós os perus, para sermos sacrificados, para comemorar o aniversario do menino Jesus? É realmente impressionante! E depois os animais é que são irracionais! Afinal pai, eu quero saber, o que nós os perus temos a ver com a morte do Cristo? Um povo insensato crucificou Jesus e quem paga somos nós, os perus?

__ Não é bem assim, filho! Como eu já disse, esta é uma forma errada de se comemorar o nascimento do menino Jesus, essa celebração de união entre os homens deveria ser mais simples, como foi a própria vida de Jesus quando aqui esteve, mas sempre tem alguns que exageram na matança de aves e animais, mesmo porque, não é apenas os perus que são sacrificados nesse dia para abastecer a mesa do homem em nome da celebração do nascimento do Cristo, o leitãozinho é mais uma vítima, quanto mais novinho o porquinho, dizem que é melhor, praticamente recém-nascido, apenas para se fartar, saciar suas gulas, é mesmo repugnante que o homem ainda aja dessa forma justamente neste dia, que é um momento de reflexão, de confraternização, amor e sobretudo gratidão por uma pessoa que veio ensinar os homens a amar uns aos outros. Se cada um de nós meus filhos tivessem o hábito de fazer uma autocrítica diária, uma análise dos nossos erros e acertos descobriríamos ao final de cada dia, o quanto ainda temos que nos melhorar.

__ Como assim, Vavá? Perguntou dona Lira, curiosa. Você quer dizer que deveríamos fazer uma retrospectiva dos nossos atos e atitudes a todo final do dia, para melhor reparar os nossos erros?

Dudú, o filho mais velho, se adianta e responde:

__ Mamãe, o papai nos ensinou que todas as noites depois das nossas orações devemos fazer um balanço do nosso comportamento ao longo daquele dia, nos fazendo a seguinte pergunta. Como me comportei hoje? Se fui mau com os meus amiguinhos, judiando, xingando, se faltei com o respeito com os mais velhos, se deixei de fazer o bem por omissão, etc. E no caso de mais erros que acertos, se perguntar: Como posso melhorar? É uma cobrança que fazemos ao nosso íntimo buscando elevar o nosso comportamento, para que no dia seguinte não voltemos a cometer os mesmo erros, mas temos que sermos honestos e sinceros com nós mesmo nesse julgamento!

__ Gostei muito, filho! É uma boa idéia, assim evita que continuemos mais tempo no erro. A partir de hoje passarei a usar também este método, procurando a cada dia errar menos!

Vavá enquanto conversava com a família, improvisava em um tronco de árvore um lugar para eles passarem a noite. Com folhagens mortas construiu um teto sobre suas cabeças, se acomodaram, fizeram suas orações. Vavá foi o primeiro a falar.

__ Em primeiro lugar, quero agradecer a Deus, ao nosso criador, a chance de ainda estar compartilhando com minha família nesse momento. Quando pensei que tudo estava perdido já me sentindo assado e tostado, de repente um novo mundo se abriu a minha frente, era o pai maior me abençoando com uma nova chance, não me fiz de rogado, me joguei no redemoinho da vida lutando para sobreviver, venci e hoje estou aqui feliz em um novo recomeço.

Vavá continuou no seu desabafo falando dos seus erros e acertos, finalizando com a frase, que: "Quando erramos estamos procurando acertar, mas quando persistimos no erro estamos entrando em débitos em vidas futuras".

Em seguida, um por um dos componentes da família peru foi fazendo uma análise do que foi vivido nas últimas vinte e quatro horas, finalizando com a promessa que no dia seguinte tentariam errar menos.

A noite estava clara e estrelada, todos estavam deitados contemplando o universo, de repente surgiu no céu uma estrela maior com um brilho resplandecente fazendo todos lembrarem naquele momento, do menino Jesus deitado em sua manjedoura.


Dilma Lourenço Moreira

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