domingo, 2 de setembro de 2012

A pastoreira



Lili morava no campo e todo o dia acordava bem cedinho para pastorear as ovelhas, sempre acompanhada do seu fiel lavrador Bile, um animal dócil que só faltava falar. Quando o sol ia alto eles sentavam na sombra de uma frondosa árvore carregada de maças para fazer uma merendinha, enquanto as ovelhas pastavam tranquilamente.
Certo dia, em um momento como esse de relaxamento, Bile depois de saciar seu apetite com deliciosas maças tirava um cochilo, com a cabeça apoiada no colo de Lili, quando a menina olhando ao longe vê um vulto se aproximar das ovelhas, essa se assusta e levanta-se rapidamente.
__ Bile, tem alguém ali junto das ovelhas, vai ver se é aquele danado do lobo outra vez!
O cão obedece e corre para junto dos animais, Lili fica onde estava observando de longe, de repente Bile desaparece ali diante dos seus olhos, a menina fica desesperada procurando o lavrador entre as ovelhas.
__ Bile, Bile, cadê você?
E o pavor aumenta mais vendo as ovelhas também sumirem uma por uma ali na sua frente, nervosa, começa a balançar o sino pedindo ajuda para os outros pastoreiros que estavam ali na redondeza, nisso se aproxima um pastorinho.
__ O que foi Lili, porque está fazendo todo esse barulho, está assustando todo o meu rebanho!
__ Regis, socorro, me ajuda! Minhas ovelhas sumiram e também o Bile!
O garoto olha estranho para a guria e em seguida solta uma estrondosa gargalhada.
__ Lili, você tomou muito sol na cabeça, aquelas lá adiante não são as suas ovelhas?
__ Mais é que!!! Balbucia Lili, confusa.  Bile, cadê o Bile? Pergunta Lili, sentindo o coração disparar no peito.
Regis, ainda gargalhando aponta pro animal que caminha tranquilamente ao lado das ovelhas.
Lili fica sem graça diante da galhofa do garoto, que não deixava por menos, rachando o bico de tanto que ria.
Sem compreender o que estava acontecendo a menina ainda assustada chama o lavrador, que se aproxima dela balançando a calda, fazendo festa a sua volta.
__ Bile, que susto você me deu garoto!
No entanto, Lili percebeu um estranho brilho enigmático no olhar do cão, a fazendo estremecer, sentindo algo diferente no ar, desconfiada olha a sua volta sentindo um frio gelado lhe subir pela espinha, apavorada acompanha Regis que se afasta com seu rebanho.
__ Regis, espera por mim!
Porém o pavor é maior quando percebe que este, em um piscar de olhos também tinha desaparecido.
__ Epa, tem algo de estranho acontecendo por aqui! Pensa Lili correndo desesperada, a caminho de casa.
__ Papai, mamãe! Tem alguma coisa acontecendo no campo!
A mãe vem em seu socorro.
__ Te acalma menina, o que de tão assustador está te apavorando desse jeito?
Lili mal conseguia falar, depois de tomar fôlego, diz:
__ O Regis também desapareceu!
__ Filha, você não deve estar bem! Olha o Regis lá pastoreando o rebanho!
__ Mas pai, mãe, primeiro sumiu as ovelhas, o Bile, e em seguida foi a vez do Regis, eu Juro! Tem alguma coisa de muito estranho acontecendo, acreditem em mim!
__ Está tudo bem filhinha, vá descansar um pouco em seu quarto, deixa que o pai cuide das ovelhas, tome um gole dessa água fresca que acabei de pegar na bica, você está muito impressionada.
Lili obedece à mãe, deita, mas não consegue ficar muito tempo na cama, uma suspeita a faz sair de casa outra vez, com um pensamento fixo na cabeça.
__ E se for armação do lobo pra me tirar de perto das ovelhas? Mas se ele pensa que me engana, vai ter uma surpresa.
Lili, de longe avista os animais no campo a revelia correndo atarantados em círculos, olha a sua volta a procura do pai e nem sinal dele, nem Bile, muito menos Regis. A menina, pé entre pé vai se aproximando das ovelhas achando se tratar do lobo larápio que estava afugentando a criação, quando surpresa, seus olhos esbarram com uma família de sacis.
__ Há, então é isso? Diz Lili matando a charada, são as pestes dos sacis aprontando outra vez, estão enlouquecendo as ovelhas. As pobres, hipnotizadas rodopiavam no pasto feito um pião. A menina pensativa se pergunta:
__ E agora, como vou salvar os animais da hipnose dos sacis? Até que ela tem uma ideia.
__ Se é verdade que os sacis têm medo da Cuca, eu tenho uma surpresinha para eles!
Lili lembrou que no último verão tinha passado na casa da prima da cidade e ela tinha lhe dado uma fantasia de Cuca que tinha usado no baile do carnaval anterior.
Lili corre em casa e veste a fantasia de Cuca e volta ligeiro para junto das ovelhas, essas ainda estavam sobre o poder dos sacis, que se divertiam aterrorizando os animais, quando os sacis avistam a figura da Cuca se aproximando levam um baita de um susto e fogem em disparada deixando para trás um filhotinho de saci, esse era bem pequeninho, porém o sacizinho fica tão assustado que perde o sentido, caindo em meio das ovelhas, que livre do encantamento dos sacis corriam apavoradas no meio do campo, a menina pega o pequeno saci em seus braços o salvando de ser pisoteado pelos animais.
Lili, feliz volta pra casa levando o filhote de saci em seus braços.
__ Mãe, descobri quem estava assustando os animais, olha o que encontrei!
__ Crus credo menina, tira essa coisa daqui de dentro de casa, sacis trazem azar! E o que você está fazendo nessa fantasia de cuca?
__ Pois é graças a esta fantasia que ganhei da prima, que afugentei uma família de sacis que estava assustando o rebanho de ovelhas, espalhando pavor pelo campo. O pai e o Regis também já estão livres da hipnose dos danados dos sacis, que se divertiam, fazendo dar piruetas pelo campo, as pestes saíram com tanta pressa que deixaram para trás esse pequenino saci, até que ele é bonitinho, não é mãe?
__ Lili, leva já essa coisa daqui! Quando os pais derem por falta do filhote vão achar que você o roubou, saci não é coisa boa, solta-o no meio da mata que ele encontra o caminho de casa.
__ Há mãe, olha a carinha dele? Ele é tão pequenininho e se ele se perder na mata?
__ Lili, me obedeça! Tira agora esse filhote de peste daqui!
A menina não teve escolha, enrola o sacizinho em uma toalha e sai em direção da mata, caminha um bom tempo pelas trilhas da floresta procurando um lugar seguro para deixar o filhote, no entanto, a cada passo que dava sentia o coração apertado, não tinha coragem de deixá-lo sozinho abandonado em meio a tantos perigos, ainda mais que o bebê tinha voltado a si, esperneava no colo da menina mexendo os bracinhos e perninha, olhando-a com os olhos carinhosos puros e indefesos como um bebezinho comum. A pastorinha não sabia o que fazer, a sua vontade era de dar meia volta e levá-lo para casa, mas por outro lado pensava na mãezinha do sacizinho, que devia estar sofrendo com a ausência do seu filhote. Logo, se ouve um assovio ensurdecedor cortando o silêncio da mata, não demora muito Lili é cercada por um bando de sacis, a menina, assustada abraça forte o bebê, até que se aproxima uma saci fêmea, tinha ela a meiguice no olhar, essa olha cariosamente pro rosto do bebê estendendo os braços, pedindo o seu filhote. Lili entrega o bebê nas mãos da saci reconhecendo nela a mãe do sacizinho e se afasta rapidamente sem se voltar para trás,  sentindo o coração tranqüilo com a certeza de ter feito o certo.
 Porém, o danado do sacizinho conquistou o coração da menina e quando a saudade bate forte no peito Lili volta à clareira da mata e de longe fica admirando o filhote de saci, feliz brincando na companhia de seus irmãos.


Dilma Lourenço Moreira

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