terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O mendigo








Eu tive uma infância muito feliz, onde toda a criançada brincava nas ruas descalças sem a preocupação do perigo.

No tempo que as ruas não eram calçadas quase nem carros passava por ali. Brincávamos de esconde-esconde, pular cordas, amarelinha, queimada, morto-vivo, garrafão, jogo das pedrinhas, etc..

Entre os muitos amiguinhos da rua tinha um mendigo, o seu nome era Leandro, quase sempre estava bêbado, se misturava no meio da garotada e fazíamos uma grande farra. Ele morava dentro de um matagal, lá construiu uma pequena cabana do tamanho de uma casinha de cachorro, eu acho que Leandro dormia sentado.

Quando se é criança pouco importa a vida financeira desse ou daquele, o importante é ser tratado de igual para igual e Leandro era um dos nossos, estava sempre junto em nossas brincadeiras, ele gostava muito de cantar a música do percevejo. Quando encontrávamos com ele pedíamos todos juntos em coro.

___ Leandro, canta a música do percevejo!Fazíamos uma roda em volta dele e cambaleando por conta da bebida começa a cantar com jeito de molecão fazendo graça, olhava para nós e dizia:

___ Vê se vocês aprendem, é assim!

___ A pulga e o percevejo fizeram combinação, fizeram serenata debaixo do meu colchão, a pulga toca flauta, o percevejo violão; e o danado do piolho também toca rabecão. E assim começava a festa, Leandro tanto cantava como pulava, claro que tinha alguns garotos que eram malvados, enquanto Leandro cantava puxavam a camiseta dele para deixá-lo enfezado e terminava ele perdendo a calma saindo correndo atrás dos garotos, não para bater, terminava virando brincadeira, os meninos corriam na frente e diziam deixando Leandro bravo:

___ Leandro não me pega, Leandro não me pega!

Claro que ele não conseguia pegar ninguém, porque mal se agüentava de pé.

Às vezes Leandro agia estranho, diferente do seu normal aparecia na rua todo alinhado, banho tomado, parecia que não tinha nem bebido, a garotada tirava sarro dele perguntando aonde ele ia todo bonitão, ele ria, mas não respondia nada, aliás, era muito difícil ouvir a sua voz, era um pouco gago e quando falava alguns garotos riam dele, só ouvíamos mesmo a sua voz quando cantava a música do percevejo, tinha vezes que pedíamos para que cantasse outras músicas, Leandro ria balançando a cabeça e voltava a cantar a mesma música do percevejo. Quando perguntávamos se ele tinha família sempre fugia do assunto, os seus olhos mostravam uma tristeza constante, mesmo quando seus lábios sorriam.

Um dia, o dono do terreno que Leandro morava mandou cortar os matos e derrubou a cabana dele ameaçando chamar a policia, caso Leandro permanecesse em sua propriedade. Foi muito triste esse dia ver os objetos do nosso amigo espalhados pela rua, o homem sem coração juntou todas as coisas de Leandro e jogou em cima da cabeça dele, que estava sentado no meio do capim sem defesa e não satisfeito saiu chutando o que encontrava pela frente, caneca, bule, prato de alumínio, cobertor e as poucas roupas que o pobre coitado tinha, Leandro permaneceu encolhido em um canto com uma expressão indefinida no rosto, não sei se ria ou chorava. Assim que o dono do terreno deu as costas, fomos todos ajudar o nosso amigo. Nós, a garotada da rua, nos reunimos e saímos em busca de madeiras para construir uma nova cabana para Leandro. Coitado, tinha feito uma casa tão pequena para não chamar a atenção de quem passasse na rua e mesmo assim o denunciaram. Nesse dia Leandro ficou tão bêbado que não conseguia nem cantar, do nosso jeito fizemos uma nova cabana, alta, que desse pelo menos para ele ficar de pé e um comprimento que ele pudesse deitar para dormir. Leandro ficava rondando a nossa volta rindo da confusão que fazíamos enquanto construíamos o seu barraquinho.

Terminou que nos divertimos muito nesse dia. Quando a noite caiu fomos todos, cada um para a sua casa deixando Leandro também abrigado. Nessa noite rezei para que não ventasse forte, para não derrubar a casinha do nosso amigo, as madeiras estavam velhas, os pregos a maioria estavam enferrujados, mas enfim Leandro não estava no relento tinha um teto ou umas madeiras protegendo sua cabeça.

Naquela manhã acordei com alguém batendo na porta, era a mãe do Cuca. Ela chorava muito, mamãe tentava acalmá-la.

___ O que foi tia! Por que a senhora está chorando?

___ É o Cuca, você sabe do problema sério que ele tem nos rins, ele foi internado esta madrugada, está muito mal, o médico disse que Cuca precisa de um transplante de rins urgente, se não aparecer um doador dentro de poucos dias seu organismo não vai resistir.

No mesmo dia, na volta da escola depois de fazer os meus deveres de casa fui me juntar com os amigos da rua, encontrando todos sentados no meio fio, tristes com o estado de saúde de Cuca, ele era uma amigo muito querido, Leandro estava junto e tentava nos animar dizendo que Cuca logo estaria curado, contei o que a mãe dele disse na minha casa que o filho precisava de um rim novo, se isso não acontecesse ele ia morrer, quando disse isso foi uma choradeira geral. Naquele dia ninguém quis brincar na Rua Walt Disney, era esse o nome da rua que a turma de amigos se reunia, onde a maioria, inclusive eu morávamos. Por um bom tempo essa rua ficou vazia sem a alegria da garotada, por conta do acontecido com Cuca.

Nisso se passou alguns meses com o nosso amigo sofrendo no hospital, mas logo tivemos uma surpresa boa, Cuca teve alta do hospital, tinha recebido o transplante de rim e estava se recuperando muito bem.

Lembro-me como se fosse hoje, quando ele apareceu na Rua Walt Disney foi aquela alegria e resolvemos fazer uma festa para comemorar a volta de Cuca. No fundo da minha casa tinha um galinheiro, colocamos as galinhas para fora, lavamos e varremos, deixando tudo muito limpinho, peguei o radinho de pilha do meu avô, cada um trouxe um prato de guloseimas e foi aquela farra, dançamos entre muitas músicas “Alo cupido”, que tocava em uma novela na TV que se passava nos anos 60, a festa durou a tarde inteira, quando alguém se lembrou do Leandro.

___ É mesmo, pessoal! Que fim levou o Leandro? Já algum tempo que não o vejo! Será que aconteceu alguma coisa com ele? Perguntei preocupada.

Foi o Cuca que respondeu.

___ Eu sei onde está o Leandro!

___ Fala logo Cuca, onde está o Leandro!

___ No hospital, foi ele que me doou o rim, mas não se preocupem, está tudo bem com ele, apenas precisou ficar mais um tempo internado, porque está fazendo um tratamento neurológico na cabeça, a médica que fez o meu transplante reconheceu Leandro como marido dela, há alguns anos atrás ele sofreu um acidente de carro vindo a perder a memória, só que tinha desaparecido, tinha fugido do hospital e esse tempo todo, a família estava a sua procura.

No dia seguinte, toda a turma foi visitar Leandro no hospital.

Quando chegou a minha vez de entrar no quarto, me deparei com outro homem, ao seu lado estava a sua esposa e seus dois lindos filhos, fiquei sem graça e já ia saindo quando Leandro começou a cantar a música do percevejo.

___ Torce, retorce, procuro, mas não vejo, não sei se era a pulga ou se era o percevejo!

Olhei para trás e Leandro estava sorrindo, com os braços abertos esperando um abraço, corri para os seus braços reconhecendo naquele novo homem, o amigo Leandro de sempre.



Dilma Lourenço Moreira



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