sábado, 28 de janeiro de 2012

Religião é fundamental



A professora Nina passava atividades de português no quadro negro, quando ouve uma discussão no fundo da classe entre Pedro e Regis. Termina que a professora perde a paciência e pede que os alunos expliquem a razão da briga.
Pedro diz, ofendido:
__ Professora! O Regis chamou a minha mãe de macumbeira e não é verdade, ela é uma estudiosa da doutrina espírita de Allan Kardec.
Regis, por sua vez se defende.
__ E ele professora, insinuou que a minha família segue uma religião de moral, um pouco duvidosa.
__ O que? Pergunta a professora, indignada.
__ Não foi nada disso, professora! Foi apenas uma brincadeira. Ele está nervoso, porque não gostou da piada que contei, no recreio.
 O menino querendo se justificar, notando que tinha a atenção da classe, se pôs a contar a piada.
__ Uma mulher estava atravessando por muitos problemas, então aconselharam ela a ir a uma igreja evangélica. Chegando lá, o pastor da igreja pediu que os visitantes se levantassem e se apresentassem aos demais, falando um pouco de si. Junto com essa mulher se levantaram quatro pessoas. O primeiro disse que era ex-presidiário e estava há muito tempo no crime, mas que agora estava decidido a mudar de vida. O segundo era ladrão de banco querendo se regenerar. O terceiro confessou que no passado foi estrupador. O quarto, um estelionatário que ludibriou muitas pessoas. Quando chegou à vez da mulher, ela saiu correndo feito um relâmpago igreja afora, gritando feito louca, socorro, socorro, polícia!
__ Kkkkkkkkkkkkkkkk
A sala de aula quase foi abaixo, com as gargalhadas. A professora Nina, com ar muito sério pede silêncio à classe e manda Pedro se sentar em seu lugar, se preparando para começar um sermão.
__ Realmente Pedro, foi uma piada de muito mau gosto, fique sabendo que a religião é muito importante na vida do homem, uma pessoa sem religião não tem Deus no coração e termina caindo sobre terra como uma árvore oca, perambulando pelas ruas sem fé, sem esperança, mesmo porque não se diferencia um homem pela sua religião, raça, cor, ou pela conta bancária, portanto não admito nenhum tipo de descriminação aqui na minha sala de aula.
Quando Regis diz, ofendido.
__ É, mas a senhora permitiu que o Pedro contasse a piada! Então agora, também quero contar uma.
A professora Nina abaixa a cabeça e em seguida decide:
__ Você tem razão, Regis! Responde a professora, sem graça. Mais que justo, que você agora também conte a sua.
Regis, com ar vitorioso diz:
__ Um dia, um menino de seis anos estava em um centro espírita, em uma aula de evangelização. O tema era reencarnação. Quando terminou a aula, o menininho com ar de assustado, mais que depressa levantou o bracinho.
__ Professora! Posso perguntar uma coisa?
__ Pode sim, meu bem! Responde à evangelizadora, solícita.
__ A senhora está viva, ou morta?
E mais uma vez a classe vem abaixo, se enchendo de gargalhadas.
__ Kkkkkkkkkkkkk.
Nisso, Joãozinho se levantou animado.
__ Professora, sei uma de católico, posso contar?
__ Há, não! Basta! Vamos parar por aqui, ou vão todos para a diretoria! Toda religião que fale em nome de Deus e Jesus Cristo, merece o nosso respeito. Todo conceito, ou doutrina que eleve a moral do ser humano, merece a nossa admiração.
 Porém, Mariazinha quis saber mais.
__ Professora! É verdade que cada um segue a religião que tem mais afinidade?
__ Acredito que sim, afinal cada um tem um jeito diferente de ser.
__ Então a senhora quer dizer, professora, que apesar da piada do Pedro ser horrível, se aquela mulher tivesse afinidade com os demais visitantes, ela não teria ido embora da igreja?
A professora sorrindo sem graça, responde:
__ Eu prefiro te dizer, que a mulher da piada horrível de Pedro não estava com problemas morais.
E continuou Mariazinha.
__ A minha vó diz que nada acontece por acaso e se nascemos em um lar, por exemplo, católico, é porque nosso espírito necessita daquela formação para melhor evoluir, mas tenho percebido que algumas pessoas depois de adultos trocam de religião, a senhora acha certo isso, professora?
 __ Mariazinha! Tem momentos em nossas vidas que realmente atravessamos tempos difíceis e quando não recebemos apoio dentro da nossa religião, em desespero saímos à procura de outra que nos de a ajuda que necessitamos, mas repito que esse indivíduo só permanecerá nessa nova religião se tiver em comunhão de pensamentos e energias com os demais freqüentadores da casa e uns dos trabalhos mais bonitos e importantes das igrejas é justamente auxiliar os necessitados, ajudar os fiéis a se erguerem, quando esses se encontram muitas vezes no fundo do poço, não só em partes materiais, mas também moralmente, é por isso que eu peço para vocês que respeitem a religião do coleguinha. Sou da opinião que cada um segue a doutrina que mais se adapta ao seu grau de evolução. 
A professora já tinha dado o assunto como encerrado, quando Joãozinho levanta a mão e pergunta:
__ Professora e na piada do Regis, afinal, a evangelizadora do centro espírita, ela é viva, ou morta?


Dilma Lourenço Moreira

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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O gato do telhado





Certo dia apareceu um gato no telhado do prédio vizinho ao meu, até aí tudo bem, gatos vivem em telhados mesmo, mas o que ninguém sabia era que aquele visitante se tornaria uma peça muito importante em nossas vidas. A partir daquele momento em diante, nasceria uma grande amizade entre um menino e um felino.
Zezinho, o meu filho e a garotada do prédio logo se encantaram com o animal, apesar do bichano estar um pouco maltratado, era brincalhão.
As crianças começaram jogando pedaços de pão pro gato, depois ração que roubavam da minha cadelinha Cindy, que não estava gostando nada dessa brincadeira e nisso o gato foi ficando. O problema é que se passaram dias e nada do gato ir embora, logo surgiu uma dúvida, será que esse gato não estava preso no telhado? Esse telhado ficava abaixo do meu andar e na lateral colado com a minha área de serviço tinha outro telhado mais alto que o primeiro, onde o gato corria livremente pra pegar a ração que as crianças jogavam para ele. O difícil era dar água para o gato, mas logo Zezinho deu um jeito, o lugar mais próximo pra chegar ao felino era da janela da área de serviço de casa, então ele amarrou uma panelinha de alumínio na ponta do cabo de um bambu, pra levar água e ração até o gato, que se fartava de comer ração e tomar leite com pão, mas o que o gato gostava mesmo era quando Zezinho jogava da área de serviço as bolinhas de ração pra ele pegar no telhado debaixo. O gato agarrava de primeira, abocanhando as bolinhas de ração com uma agilidade incrível, o bichano não perdia uma, pulava de lado, rolava no telhado, mas era difícil ele deixar escapar as bolinhas, por essa razão Zezinho passou a chamar o gato de Júlio César, em homenagem a um goleiro da nossa seleção.
Zezinho e o gato do telhado se divertiam muito e quando o gato deixava a ração escapar, o show era melhor ainda, ele corria feito um louco atrás da ração por todo telhado e assim o gato Júlio César se tornou parte da nossa família.
Logo pela manhã, assim que abríamos o vidro da área de serviço, era a carinha do felino goleiro que procurávamos primeiro e lá estava ele esperando a sua refeição matinal, com os olhos vidrados em nossa janela. Assim que via Zezinho, se aproximava correndo pra nossa janela em um miado manhoso, em um lamento constante, lambendo a boca avisando que estava faminto. Ele era muito engraçado e não tinha quem não se apaixonasse pelo gato siamês, olhos azuis brilhantes feito cristal, pêlo mesclados de cinza claro e escuro, a calda não parava de acenar e estava sempre ronronando como se tivesse a conversar, no entanto tinha um problema, era que quando chovia ficávamos com muita pena de Júlio César, porque não tinha como ele pular para o corredor do nosso prédio e nem muito menos entrar pela área de serviço do nosso apartamento, pra isso era preciso que tivesse asas. Um dia, meu marido, preocupado arranjou umas tábuas com o zelador, ligando o telhado com o nosso corredor fazendo uma ponte pro gato passar. Ele, muito arisco e desconfiado ficou um bom tempo cheirando as tábuas, Zezinho achou que ele estava com medo, afinal a distância não era tão pequena e o precipício que ficava logo abaixo era profundo, até que alguém teve a ideia de colocar um peixe como isca, na ponta dessa tábua forçando o bichinho a subir na ponte improvisada. Deixamos as portas da portaria abertas e esperamos, até que atraído pelo cheiro do peixe o gato escalou a tábua meio trêmulo, devagarzinho quase agachado chegou à outra extremidade da ponte, só foi mesmo o tempo de dar uma paradinha pra roubar o peixe e sair correndo feito uma flecha andares abaixo, porém não demorou muito eis quem aparece, o felino outra vez no telhado, ainda se deliciando com o resto do peixe e foi assim que descobrimos com grande alívio que o bichano não estava preso no telhado.
Com o tempo, descobrimos também como Júlio César chegava até ali. No fundo do nosso prédio tinha um estacionamento e era por onde ele subia e ia escalando os telhados vizinhos até o telhado ao lado da janela da minha área de serviço, de forma que ele vinha e ia quando queria, mas mesmo assim ficávamos penalizados com o animal, porque ele não saía mais dali, era sol, era chuva e o gato não arredava do telhado.
Nesses dias chuvosos Zezinho alimentava Júlio César e brigava com ele pra sair da chuva. Tinha uma parte sobressalente de telhas que saía de um telhado da garagem, que dava pra ele se abrigar da chuva, mas de lá não dava pra ver o Zezinho e quem disse que o bichano obedecia, ficava lá no telhado abaixo da nossa janela, nem piscava, todo molhado. Meu marido ainda tentou pega-lo algumas vezes se equilibrando em cima da janela, mas o gato era muito arisco e fugia pro telhado debaixo, assustado. Não tinha jeito, tínhamos que fechar a nossa janela, sofrendo e vendo o gatinho se molhar até a alma. O pior era que Júlio César estava com uma ferida muito feia em uma das patas, deve ter sido conseqüência de brigas com outros gatos. Apesar do felino ser arisco, Zezinho, do jeito dele tentou colocar remédio em seu machucado. Com a ajuda de uma vara de pescar fez com que o animal pensasse que fosse uma brincadeira, ficava riscando a vara no telhado atiçando o gato, só que na ponta da vara de pesca ele prendeu uma bola de algodão umedecido com a solução de violeta. De princípio o animal ficou desconfiado, mas o menino insistiu e o gato curioso como que, não demorou muito e lá estava ele correndo atrás da bola de algodão. Quando ele se aproximava Zezinho dava um jeito de encostar a bola com o remédio pelo corpo do animal, apesar de que até ele conseguir passar o remédio na ferida, o gato ficou todo tingido de violeta. Esse dia foi muito engraçado, mas no final Zezinho conseguiu cuidar da ferida de Júlio César.
Os dias foram se passando, com Zezinho e o felino siamês cada vez mais próximo, agora mais aliviado, porque não precisávamos chamar os bombeiros para tirar o gato do telhado.
Descobrimos que ele era da moça da loja de conveniência a alguns telhados dali, mas na loja ele também não ficava preso.
Á noite e nos finais de semana ele sempre escapava por uma abertura do depósito dessa loja, pra ficar brincando com Zezinho. O gato do telhado estava cada vez mais lindo, antes era magrinho, cheio de feridas, com as costelas visíveis, tinha um miado triste, agora estava forte, com o pêlo brilhante, estava bem tratado, dava pra ver que ele estava feliz. O lugar que Júlio César mais gostava de ficar era na parte mais alta do telhado, colado com a nossa área de serviço. Ele ficava deitado manhosamente tomando sol, vigiando o movimento do corredor, esse era o único canto do telhado que Zezinho quase que podia tocar o felino, isso é, se ele não fosse um gato tão arisco, mas o que não faltava em Zezinho era paciência e ele insistiu. Levou um tempo para que animal permitisse que o menino fizesse um breve carinho com as pontas dos dedos em sua cabeça, nesse dia a emoção do garoto foi grande, o sorriso e os olhos brilhantes demonstravam o seu contentamento. Zezinho subia na janela todos os dias e esticava os bracinhos tentando chegar mais perto do gato siamês, conversava com ele tentando conquistar a sua confiança e quando seus dedos estavam a pouca distância, o bichinho fugia assustado pra longe do menino, até que um dia Zezinho teve uma surpresa, assim que ele esticou o bracinho pra acariciar o animal, esse não fugiu e finalmente aceitou o carinho do amigo e essa amizade durou anos com o felino no telhado e Zezinho na janela da área de serviço. Claro que quando vimos Zezinho se equilibrando na janela pra ver o gato no telhado ao lado levamos um choque e como ele era levado não obedecia, então instalamos uma grade na janela, com medo que ele despencasse janela abaixo.
Quando precisávamos sair ou viajar, Zezinho fazia um drama, porque não queria deixar o bichano sozinho, ele tinha a ilusão que o gato era dele, chorava dizendo que não ia e não adiantava eu e o pai dizer que o gato era livre e além do mais ele tinha casa e uma dona que podia cuidar dele, mas não, Zezinho não queria nem ouvir, era uma choradeira sem fim, batia o pé dizendo que o gato sem ele morreria. Tentava convencer eu e o pai a todo custo, a deixá-lo em casa tomando conta do gato, o pai dizia não e ordenava que fosse se preparar para sair com a família senão ia pedir para a dona do gato prende-lo em casa, diante dessa ameaça Zezinho não tinha outra escolha, não podíamos sair e deixar um menino de sete anos sozinho em casa, ele estava muito apegado ao gato e isso nos preocupava um pouco, com medo que ele sofresse quando o animal fosse embora, mas mesmo assim o menino não deixava Júlio César desamparado, deixava um coleguinha encarregado de cuidar do bichinho, explicando que não podia esquecer-se de dar água e o leite dele todas as manhãs e era com muita pesar que Zezinho saia de casa. Ração, qualquer vizinho podia jogar para o gato, que ele agarrava. O pior era a água e o leite, que só podia dar da nossa área de serviço.
Enquanto estávamos fora Zezinho não relaxava, preocupado se perguntava:
__ E se o meu gato se machucar, quem vai cuidar dele? Perguntava o menino triste, por ter deixado o animalzinho sozinho no telhado, mas a aflição maior de Zezinho era nos dias de chuva, era de cortar o coração a carinha dele olhando pro gato todo ensopado, a chuva caindo e o bichano lá com os olhos fixos em nossa janela. O menino entristecido fechava a janela, pra que o gato fosse embora e mesmo assim o bichinho ficava um bom tempo ainda esperando o menino aparecer na janela.
O tempo passava, com o animal e o menino cada vez mais ligados, passando o felino há ficar mais tempo no telhado, do que na casa de sua dona. Quando Zezinho chegava da escola, mal apontava no corredor, o gato no telhado já começava a fazer festa, corria sobre as telhas acompanhando Zezinho, que corria também pelo corredor. O bichano ia tentando alcançar o menino. Cada um corria de um lado, o gato atendendo o chamado do menino corria miando, balançando a calda, feliz o acompanhando até ver o menino entrar em casa, depois ficava esperando no telhado chegando o mais perto que podia da janela da área de serviço, tão perto que estava perigando qualquer dia Júlio César cair do telhado, essa era a hora de dar água e mais um pouco de ração pro gato. Zezinho fazia questão de comprar uma ração especial pra gatos, que tivesse muitas vitaminas, afinal o gatinho não podia ficar doente. As primeiras rações, agora o felino feliz comia direto nas mãos de Zezinho e só quando o bichano estava com a barriguinha bem cheia, porque ele comia tanto, que se lambuzava paparicado pelo garoto. Eles iam brincar de jogar ração, o gato muito malandro ia agarrando as bolinhas e ia pondo de lado. Mais tarde, quando dava fome só se ouvia o barulho do crack, crack do gato, comendo o resto da comida, no telhado.
Essa amizade durou alguns anos, até que um dia Júlio César sumiu. Zezinho ficou triste na janela esperando o gato aparecer, passava o dia chamando pelo nome do gato e nada dele vir. Preocupado foi até a loja da sua dona encontrando o comércio fechado, descobrindo que eles tinham se mudado. O gato do telhado tinha ido embora deixando Zezinho na saudade, mas depois de um tempo o felino voltou para visitar Zezinho, o menino ficou em uma grande alegria, ria e chorava ao mesmo tempo em rever o gato do telhado, só em saber que ele estava vivo e com saúde, Zezinho hoje quase um rapazinho ficou muito aliviado, mas o gato não se esquecia de Zezinho e volte e meia ele surgia trazendo alegrias com suas brincadeiras, correndo atrás das rações pelo telhado, fazendo o menino outra vez sorrir.
Foram muitas idas e vindas. Com o tempo as visitas foram diminuindo, quando o bichinho chegava demonstrava cansaço, o tempo tinha passado e Júlio César tinha envelhecido, afinal sua nova casa ficava agora em outra cidade, de forma que a sua dona também era importante para o gato,  até que um dia o gato do telhado desapareceu de uma vez deixando muitos momentos felizes registrados em nossas lembranças.
Ainda ontem vi Zezinho, pai de família, revendo com carinho as fotos do gato do telhado.
Os animais são como as pessoas queridas, que passam por nossas vidas deixando muitas, muitas saudades. 
           
Obs: baseado em uma história real. Os nomes dos personagens desta história foram modificados.
                                            
Dilma Lourenço Moreira


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sábado, 14 de janeiro de 2012

Luz interior




Dalva é uma estrelinha do mar, em noites claras e estreladas ela se deitava na areia ainda morna da praia e ficava a se perguntar, tentando puxar pela memória, que momento da sua vida tinha caído do céu, vindo parar no mar? Suspirava a estrelinha, inconformada com seu destino.
E continuava a estrelinha a se lamentar, falando consigo mesmo:
__ Lá no céu deve de ser melhor de se viver do que aqui no mar. Aqui é cheio de animais estranhos, querendo engolir uns aos outros. Sinto que aqui, não é o meu lugar! Soluçava a estrelinha baixinho, desejando voltar para o céu, quando ouve a avó lhe chamar.
__ Dalva, vem dormir, já é tarde! O que tanto faz aí sozinha olhando pras estrelas?
__ Vovó! Quando foi que caímos lá do céu?
A vó Estela acha graça na pergunta da neta e ri descontraída.
__ Então você acha que somos como aquelas estrelas do espaço e caímos no mar?
__ E não foi assim, vovó? Nós somos, ou não somos estrelas?
__ Somos estrelas marinhas! Nascemos no fundo do mar, para chegarmos a ser uma estrela como aquelas que você está vendo lá em cima bem pertinho do céu grandiosa e cheia de luz, vamos ter que aprender ainda muita coisa sobre a vida.
Tonhão, o caranguejo, se junta a elas e vai logo dizendo:
__ Se você não está satisfeita que é uma estrela do mar, imagine eu, que além de morar em tocas escuras, ainda ando de lado. Você não sabe a luta que tenho que enfrentar pra fugir dos predadores.
Vovó Estela torna a dizer, sorrindo.
__ E uma das primeiras lições do nosso aprendizado em rumo ao caminho das estrelas do céu, é nos aceitar do jeito que somos, cada um tem a vida que merece, ou que convém melhor ao seu crescimento moral.
__ A senhora quer dizer vovó, que se nasci aqui no mar é porque ainda não tenho merecimento pra ser uma daquelas estrelas brilhosa lá do céu? Que eu saiba sempre me comportei bem e nunca fiz mal a ninguém!
__ E eu, então se adiantou o caranguejo na defensiva. Ao contrário, sou uma vítima, vivo fugindo dos predadores que querem me devorar.
Vovó Estela olhando nos olhos de seus ouvintes, interroga:
__ E o bem, vocês já fizeram? Ninguém chega ao estágio radiante de uma estrela do céu, sem antes não ter praticado a caridade. Para se chegar ao nível de uma estrela do céu, antes precisa se doar ao próximo, a luz que brilha tem que vir do seu interior.
__ A senhora quer dizer, vó Estela. Pergunta o caranguejo, preocupado. Que não basta ser bonzinho! Não basta ficar quietinho na minha toca, me mantendo fora do perigo? Tenho que interagir com o mundo, ser sociável com todos, a minha volta, auxiliar o meu próximo, porque só com a prática do bem, se chega à luz interior?
__ Sim! Tonhão, praticando a caridade, acenderemos a nossa luz interior!
A estrelinha Dalva apreensiva, também quer saber.
__ Então, se eu praticar a caridade, eu consigo essa luz interior, vovó?
__ Sim, mas tem que ser uma ajuda despretensiosa, sem esperar nada em troca. Na verdade, só se chega a essa luz quem se doa por inteiro ao próximo, mas para obter essa atitude, é preciso primeiro aprender a se amar, se aceitar do jeito que você é. Não importa como você é fisicamente, o importante é o que você pode fazer para melhorar o seu interior. O que eu quero dizer, minha neta que na verdade não adianta você ficar aí todas as noites olhando para o céu se lamentando e nada fazer para modificar a sua situação, se você quiser se igualar as nossas irmãzinhas estrelas lá do céu, essa mudança tem que vir de dentro para fora, até o caranguejo Tonhão já entendeu que se ele ficar escondido dentro de sua toca com medo de se arriscar, nada em sua vida vai mudar e que mesmo com esse seu jeito torto de caminhar, ele vai para onde desejar, sendo assim somos livres para tomar o caminho que escolhermos, é você que decide que tipo de estrela que você quer ser. Todos nós temos uma luz interior, basta seguir o foco, para a luz aparecer!
O caranguejo sai na frente todo torto, disparando em uma corrida, gritando para a amiga:
__ Vamos rápido, estrelinha! O que estamos esperando para começar logo a fazer o bem!
Vovó Estela e a estrelinha Dalva, de longe riam da corrida estabanada do caranguejo Tonhão, que assim mesmo todo torto, corria em busca do seu foco de luz.



                         Dilma Lourenço Moreira 

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Retorno ao lar




A baleia Zuzú estava muito doente. O veterinário, entristecido dava a notícia para o diretor do aquário.
__ Eu sinto muito, mas a Zuzú não passa dessa noite, os seus pulmões estão muito infeccionados, não tem como recuperá-la, o melhor seria solta-la no alto mar para viver suas últimas horas em contato com o seu habitat.
O diretor do aquário, embora estivesse muito abalado, achou que Zuzú ia ficar feliz, afinal era o mínimo que podia fazer por muito que o animal tinha feito por ele. Durante muitos anos a baleia foi a atração principal daquele aquário, era justo ela ganhar a liberdade agora que estava morrendo, se pudesse falar, com certeza seria esse o seu último pedido, voltar para casa, para o convívio com seus.
E assim foi feito, o veterinário com a ajuda de um biólogo marinho, com muito cuidado devolveram a baleia ao mar, lugar de onde nunca deveria ter saído.
Os golfinhos prepararam uma grande recepção para recebê-la. Zuzú ficou muito emocionada revendo velhos amigos. Os leões marinhos gêmeos, Marcelo e Gaspar acompanharam-a até o seu antigo lar, mas a felicidade maior da baleia Zuzú foi poder abraçar Gabriel, o seu amado filhote. Quando ela foi capturada e levada para o convívio do homem, ele ainda era muito pequeno, um bebê, mas ela nunca esqueceu o olhar que trocaram na hora do adeus, foi um misto de decepção e abandono, fazendo cortar o coração da mamãe baleia.
Zuzú estava perdida em seus pensamentos, quando ouve alguém se aproximando. Quase que seu coração sai pela boca, reconhecendo naquele lindo animal, o seu filhote.
  __ Mamãe! Que bom que Deus ouviu as minhas preces, pedi tanto que lhe trouxessem de volta, finalmente ele me ouviu.
A baleia Zuzú, emocionada envolve seu filhote em um longo e carinhoso abraço.
__ Oi, meu amor! A mamãe também nunca te esqueceu, não deixei de pensar em nenhum segundo, em meu filhote querido!
Apesar do filhote não ver a mãe há alguns anos, sentiu que tinha algo de errado.
__ Mãe! A senhora está esquisita, parece abatida! A senhora está bem?
__ Sim! Eu estou bem, filho! É só cansaço da viagem, mesmo. Mente a baleia, para não estragar aquele momento mágico.
Gabriel, o filhote da baleia Zuzú, diante da resposta da mãe, respira aliviado voltando com um sorriso largo no rosto, mal podia acreditar que o seu sonho se concretizara, sua mãe estava de volta ao lar, agora sim, pensava Gabriel sorrindo de contentamento, ele era uma baleia completa, tinha muito orgulho da mãe, que era uma estrela de muito sucesso no mundo dos homens.
Desde pequeno ouvia seus avôs contarem histórias incríveis sobre a estrela do aquário. Zuzú arrastava milhões de pessoas para assistirem o seu show, todos ficavam encantados diante de sua performance, fazia passos de balé, malabarismo acompanhado de saltos mortais incríveis. Era considerada a maior baleia ginástica do mundo, mas para Gabriel, o melhor era ter a sua mãe de volta ao seu lado, no entanto o que o pobrezinho não sabia era que a mamãe baleia só ganhara a liberdade, porque estava morrendo.
Zuzú, depois da calorosa recepção de sua chegada aguardou o momento certo para ter uma conversa difícil com seus pais.
__ Pai, mãe! Aproveitando que o Biel foi brincar, preciso confessar uma coisa para vocês!
__ Fala logo, filha! Você está nos matando de aflição. Suplica a mãe de Zuzú, angustiada.
__ A razão de eu estar de volta, é que eu estou muito doente, estou desenganada pelos veterinários do aquário, que disseram que posso morrer a qualquer momento, sinto pelo Gabriel, sei que vocês já fizeram muito, cuidando dele todo esse tempo, mas em breve ele só vai poder contar com a proteção de vocês.
__ Calma, meu bem! Nem tudo está perdido! Não vamos entrar em desespero! Diz o pai de Zuzú, tentando acalmar a filha. Tenha fé em Deus e mantenha a chama da esperança firme em seu coração! Vamos pedir uma segunda opinião, a medicina no mundo aquático teve um avanço extraordinário, até melhor que no mundo dos homens. Lembra do doutor Liro, o nosso golfinho especialista em doenças crônicas, hoje ele é conhecido como o gênio da medicina. Passarei um chamado pelo rádio de emergência, para que venha te examinar.
Não demora muito, Gabriel entra em casa correndo assustado.
__ Vovó, vovô! Tem alguém doente aqui em casa? Por que o doutor Liro está ai fora, com uma mala cheia de injeções? Ele disse que foi chamado!
O pai de Zuzú faz o doutor Liro entrar.
__ Por favor, doutor, entre! Biel vá brincar lá fora, meu neto!
__ Não! Diz Biel fazendo birra. Só se você me disser por que chamaram o doutor Liro.
Doutor Liro, sempre de bom humor solta uma gargalhada.
__ Estou aqui para aplicar uma injeção em um filhotinho de baleia curioso!
Gabriel foge do abraço, do golfinho especialista.
__ Sem essa, doutor! Eu não estou doente! Vó avisa a minha mãe, que estou brincando aqui fora.
Doutor Liro solta uma gostosa gargalhada, acompanhando o filhote de baleia até a porta.
Quando os adultos se viram sós, Zuzú se dirige ao médico, apreensiva.
__ Doutor, o meu pai já lhe adiantou o meu problema?
__ Sim, em primeiro lugar peço que a senhora se mantenha calma, vou lhe examinar e ver o que posso fazer. Sou clínico geral e cientista e recentemente por coincidência foi descoberto em meu laboratório um antibiótico a base de algas marinha, que tem feito muita diferença na medicina, quem sabe está em minhas mãos, a sua cura!
__ Que Deus lhe ouça, doutor! Disse a mãe de Zuzú, chorosa.
 Depois disso se fez um longo silêncio na sala, com o doutor Liro examinando miciosamente a paciente, até que veio o triste diagnóstico. Com ar preocupado, disse o medico:
__ Dona Zuzú! Eu sinto muito, mas infelizmente a sua doença está muito avançada, a infecção afetou quase cem por cento de seus pulmões, temo ser tarde de mais, no entanto, como para Deus nada é impossível vamos começar imediatamente o procedimento com os antibióticos a base de algas. Tudo vai depender da reação do remédio em seu organismo, se o resultado for positivo, a senhora estará salva, é preciso ter fé!
E assim aconteceu, Zuzú passou dias lutando entre a vida e a morte, tudo que pedia era mais uma chance. Queria ficar mais um tempo com seu filhote. Quando tiraram ela do seu habitat, Gabriel tinha acabado de nascer no momento da emboscada, quando se viu enroscada na rede dos pescadores juntamente com seu filhote. Zuzú, bravamente lutou até conseguir fazer um furo na rede, empurrando o filhote para fora da armadilha, em seguida se pôs a fazer força na rede, se enroscando por inteiro dando trabalho pros pescadores, tirando a atenção deles de seu filhote até vê-lo salvo, enquanto que ela se deixava capturar.
Zuzú, em total delírio passava seus últimos dias assistindo sua vida passar, através da tela gigante mental que corria em sua memória. O doutor Liro não saía do lado de sua paciente, colocando todos os seus conhecimentos em prática, com a finalidade de salvar a enferma, até que um dia o esforço do médico teve êxito, a baleia Zuzú conseguiu vencer a infecção pulmonar. Não demorou muito, essa estava totalmente recuperada, passeando ao lado de seu filhote Gabriel.
A mamãe baleia, orgulhosa, estava duplamente feliz, primeiro, por ter escapado da morte e segundo, por estar de volta ao convívio familiar para sempre.

  
                                    Dilma Lourenço Moreira

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